Kumarajiva (344-413 EC) foi um dos mais insignes tradutores de escrituras budistas do sânscrito para o chinês. A sua mestria na arte da tradução, aliada a um profundo entendimento das doutrinas budistas, permitiu que ele não apenas convertesse palavras de uma língua para outra, mas também transmitisse a essência e as nuances do pensamento budista.
Introdução
O cenário histórico e cultural da China durante a sua vida foi um período de significativa transformação. O budismo, originário da Índia, já havia começado a sua lenta penetração na China através das rotas da Seda que ligavam o Oriente e o Ocidente. A época em que Kumarajiva atuou foi marcada pela instabilidade política do período dos Dezasseis Reinos (304-439 EC), durante o qual se estabeleceu a Dinastia Qin Posterior (384-417 EC). Este período de fragmentação política também testemunhou um notável florescimento intelectual e uma crescente abertura a novas ideias religiosas, criando um terreno fértil para a receção e integração do budismo na cultura chinesa.
As traduções de Kumarajiva desempenharam um papel axial na disseminação do budismo na China, tornando os textos budistas acessíveis a uma audiência muito mais vasta do que anteriormente possível e, influenciando de forma indelével a trajetória do pensamento budista chinês. A sua obra não se restringiu a uma mera transposição linguística; ele interpretou e moldou a compreensão do budismo na China de uma maneira que ressoou profundamente com a sensibilidade cultural e intelectual da época. A sua habilidade em encontrar equivalentes chineses para os complexos conceitos budistas, evitando as imprecisões de tentativas anteriores (em que foram usados termos taoistas e confucionistas), permitiu que o budismo se enraizasse e florescesse na China, evoluindo para formas únicas que continuam a influenciar o pensamento e a prática budistas até aos dias de hoje.
Os primeiros anos em Kucha
Kumarajiva nasceu em 344 EC no reino de Kucha, atualmente Kuqa na Região Autónoma Uigur de Xinjiang, China. Kucha era, na época, um oásis vibrante e um importante entreposto na Rota da Seda, caracterizado por ser um florescente centro de cultura e prática budista, profundamente influenciado pelas correntes intelectuais e artísticas provenientes da Índia, Pérsia e Ásia Central. O seu pai, Kumarayana, era um erudito brâmane originário da Caxemira, que, segundo a tradição, teria renunciado a uma posição ministerial hereditária para se tornar monge e viajar com o intuito de disseminar os ensinamentos budistas. Ao chegar a Kucha, a sua erudição impressionou o rei, que o nomeou sacerdote real (ou preceptor nacional, kuo-shih). A sua mãe, Jīva (também referida como Jīvaka), era irmã do rei de Kucha, uma princesa conhecida pela sua inteligência e devoção budista.
A sua herança mista, um pai indiano e uma mãe kuchana, expôs Kumarajiva a diversas influências linguísticas e culturais desde tenra idade, o que se revelaria uma vantagem inestimável para o seu posterior trabalho de tradução.
A influência materna foi decisiva nos seus primeiros anos. Quando Kumarajīva contava apenas com sete anos de idade, a sua mãe, Jīva, tomou a decisão de renunciar à vida secular e ingressar numa comunidade monástica budista, o mosteiro de Tsio-li, situado a norte de Kucha. Pouco tempo depois, o jovem Kumarajīva seguiu o exemplo da mãe, tornando-se também ele um noviço. Desde muito cedo, demonstrou uma capacidade intelectual prodigiosa, notabilizando-se pela sua memória extraordinária, capaz de reter vastos trechos de textos e sutras. Aos nove anos, já se dedicava ao estudo dos Agamas e do Abhidharma da escola Sarvastivada.
Por volta dos vinte anos, em Kucha, Kumarajiva recebeu a ordenação monástica completa, marcando uma etapa significativa na sua jornada espiritual e intelectual. Foi nessa época que começou a aprofundar os seus estudos no Vinaya Sarvastivada, o código de conduta monástica. Um ponto de inflexão na sua vida ocorreu quando se converteu ao budismo Mahayana, influenciado por mestres como Buddhayaśas. A partir desse momento, dedicou-se intensamente ao estudo da tradição Mahayana, incluindo a filosofia Madhyamaka de Nagarjuna, que viria a ser central para o seu trabalho de tradução. Ao longo da sua juventude, Kumarajiva estabeleceu-se como uma figura proeminente no mundo budista, granjeando reconhecimento pela sua vasta erudição e pela sua notável habilidade em debates filosóficos. A sua transição do Sarvastivada para o Mahayana, e particularmente para a escola Madhyamaka, representou um desenvolvimento crucial no seu pensamento, direcionando o foco das suas futuras traduções para os textos desta importante escola filosófica.
Levado para a China como prisioneiro
O ano de 383 EC marcou um ponto de viragem na vida de Kumarajiva. Durante uma campanha militar chinesa, as forças do general Lu Guang capturaram o reino de Kucha e, entre os cativos, encontrava-se Kumarajiva, que foi levado para a China. Contrariamente ao que se poderia esperar, em vez de ser imediatamente conduzido à capital Chang’an, Kumarajiva foi mantido prisioneiro por um longo período, cerca de dezasseis a vinte anos, na cidade de Liangzhou. Este período de cativeiro, embora indubitavelmente desafiador, revelou-se ironicamente providencial para o seu futuro trabalho como tradutor. Durante este tempo, Kumarajiva teve a oportunidade de se familiarizar profundamente com a língua chinesa através da interação com outros prisioneiros chineses. Esta imersão na língua chinesa, embora forçada pelas circunstâncias, permitiu-lhe adquirir uma proficiência significativa, que seria essencial para a clareza e precisão das suas traduções posteriores.
Durante este período, Lu Guang, descrito como um militar rude, terá coagiu Kumarajiva a casar-se com a filha do deposto rei de Kucha. Este ato forçado constituiu uma violação dos seus votos monásticos de celibato, uma fonte de considerável angústia para Kumarajiva, que se via como um monge dedicado.
O trabalho como tradutor
Em 401 EC, Kumarajiva chegou a Chang’an (a atual Xi’an) sob o patrocínio da dinastia Qin Posterior. O governante da dinastia, Yao Xing, era um fervoroso adepto do budismo e reconheceu de imediato o talento e a erudição de Kumarajiva. Kumarajiva foi recebido com grande respeito pela corte imperial e foi-lhe concedido o prestigioso título de “Professor da Nação” (Guoshi). Yao Xing demonstrou um profundo apreço por Kumarajiva, fornecendo-lhe um ambiente propício ao trabalho e disponibilizando um amplo edifício para facilitar o seu ambicioso projeto de tradução das escrituras budistas. Este apoio imperial foi fundamental para o sucesso da sua obra, fornecendo os recursos necessários e conferindo legitimidade ao seu empreendimento.
Em Chang’an, Kumarajiva liderou uma comunidade numerosa de tradutores, copistas e eruditos, que incluía o seu dedicado amanuense Sengrui e outros discípulos talentosos. Esta equipa colaborativa foi responsável pela tradução de uma vasta quantidade de textos budistas sânscritos para o chinês. A colaboração e a discussão com monges chineses eram partes integrantes do processo de tradução, garantindo a precisão e a adequação cultural dos textos resultantes. O próprio imperador Yao Xing participava ocasionalmente nas sessões de tradução, demonstrando o seu interesse e apoio ao projeto. A dimensão desta equipa e o envolvimento do imperador atestam a importância atribuída a este empreendimento e a natureza colaborativa do processo de tradução.
Kumarajiva revolucionou a metodologia da tradução do budismo chinês, afastando-se do sistema predominante conhecido como “geyi” (correspondência de conceitos). Este sistema anterior associava a terminologia budista a termos e conceitos do taoismo e do confucionismo, o que muitas vezes resultava em imprecisões e mal-entendidos. Em contraste, Kumarajiva defendeu uma abordagem de tradução mais livre e focada na transmissão do significado essencial dos textos originais em sânscrito, em vez de uma tradução literal e formal. O seu estilo de tradução caracterizava-se por uma fluidez e suavidade notáveis, refletindo a sua prioridade em comunicar o sentido profundo dos ensinamentos budistas. Adicionalmente, Kumarajiva desenvolveu um sistema inovador de transcrição fonética para renderizar os termos sânscritos em chinês, utilizando caracteres chineses e os seus sons para representar cada sílaba das palavras estrangeiras. A sua abordagem à tradução, que privilegiava a clareza e a fidelidade ao significado em detrimento da literalidade estrita, foi fundamental para tornar os complexos ensinamentos budistas acessíveis e impactantes para o público chinês.
Kumarajiva e a sua equipa traduziram centenas do volumes (ou rolos), um feito notável que demonstra a sua dedicação e a sua extraordinária capacidade de trabalho. O impacto destas traduções foi imenso, e muitas delas permanecem como as versões padrão utilizadas no budismo da Ásia Oriental até aos dias de hoje. Entre as suas traduções mais importantes e influentes, destacam-se:
- Sutras Mahayana:
- Vajracchedikā Prajñāpāramitā Sutra (Sutra do Diamante que Corta a Ilusão): A versão de Kumarajiva é frequentemente considerada a mais refinada e popular entre as várias traduções chinesas existentes.
- Prajñāpāramitā Hṛdaya Sūtra (Sutra do Coração da Perfeição da Sabedoria): É um dos mais recitados da tradição Mahayana (particularmente no Chan/Zen). Kumarajiva possivelmente traduziu o sutra, mas é incerto.
- Saddharmapuṇḍarīka Sūtra (Sutra do Lótus da Lei Maravilhosa): Uma das suas traduções mais célebres e universalmente aclamadas, concluída em 406 EC. A sua versão tornou-se o texto padrão do Sutra do Lótus em toda a Ásia Oriental, suplantando traduções anteriores e posteriores devido à sua clareza, beleza literária e fidelidade a um original sânscrito antigo e autêntico. É um texto fundamental para escolas como a Tiantai e a Nichiren no Japão.
- Vimalakīrtinirdeśa Sūtra (Sutra Exposto por Vimalakīrti): Esta tradução popularizou imensamente o ideal do bodhisattva leigo e a noção de que a iluminação não está confinada aos mosteiros.
- Amitābha Sūtra ou Sukhāvatīvyūha Sūtra (versão menor do Sutra da Terra Pura de Amitābha): Um texto central para as escolas da Terra Pura, que enfatizam a devoção ao Buda Amitābha e o renascimento na sua Terra Pura Ocidental. A tradução é tradicionalmente atribuída a Kumarajiva, mas com debates.
- Śūraṅgama Samādhi Sūtra (Sutra da Concentração Heroica): Um importante sutra Mahayana que explana a natureza e o poder do samādhi (concentração meditativa) alcançado pelos Bodhisattvas avançados. Não confundir com o Śūraṅgama Sūtra.
- Daśabhūmika Sūtra (Sutra dos Dez Estágios do Bodhisattva): Traduzido em colaboração com Buddhayaśas, este texto descreve os dez níveis de desenvolvimento no caminho do Bodhisattva para a iluminação completa. Foi influente para a escola Huayan.
- Tratados Madhyamaka (Escola do Caminho do Meio):
- Madhyamaka-śāstra (Tratado do Caminho do Meio, de Nagarjuna): Juntamente com as duas obras seguintes, esta tradução constituiu a base textual da escola Sanlun (Escola dos Três Tratados) na China, que sistematizou a filosofia Madhyamaka.
- Dvādaśanikāyaśāstra (Tratado das Doze Portas, atribuído a Nagarjuna): Outro dos três tratados fundacionais da escola Sanlun.
- Śataśāstra (Tratado dos Cem Versos, de Āryadeva, discípulo de Nagarjuna): Traduzido em 404 EC, completou o trio de textos centrais da escola Sanlun.
- Mahāprajñāpāramitopadeśa (Grande Comentário sobre o Sutra da Perfeição da Sabedoria): Uma vasta obra enciclopédica atribuída tradicionalmente a Nagarjuna, comentando o Pañcaviṃśatisāhasrikā Prajñāpāramitā Sūtra. Esta tradução teve uma influência imensa na compreensão chinesa do Mahayana e da Prajñāpāramitā.
As suas traduções lançaram as bases intelectuais para o florescimento do budismo Mahayana na China. A introdução da filosofia Madhyamaka representou uma nova e sofisticada compreensão da realidade para o budismo chinês, que até então era influenciado por outras correntes filosóficas chinesas. A ênfase da Madhyamaka na vacuidade (sunyata) como a natureza fundamental de todos os fenómenos ofereceu uma perspetiva radicalmente diferente que desafiou as conceções existentes e estimulou um profundo debate intelectual.
Além de introduzir novas ideias, Kumarajiva também se esforçou por corrigir mal-entendidos e esclarecer conceitos budistas importantes, como a vacuidade (sunyata) e o não-eu (anatman), que haviam sido interpretados incorretamente devido à influência taoista. Ao usar termos e conceitos familiares ao público chinês, mas atribuindo-lhes um novo significado dentro do contexto budista, Kumarajiva facilitou a compreensão e a aceitação do budismo na China.
A sua obra foi importante para o desenvolvimento de várias escolas relevantes do budismo chinês, incluindo a Tiantai, a Sanlun e o Chan. O seu trabalho não só tornou acessíveis importantes textos que eram anteriormente desconhecidos, como também contribuiu para clarificar a terminologia budista e os conceitos filosóficos.
É importante notar que a sua influência estendeu-se para além da China, impactando o budismo na Coreia e no Japão, via transmissão do cânone chinês e das escolas Tiantai/Tendai, Sanlun/Sanron e Chan/Zen. Ele é amplamente reconhecido como um dos maiores tradutores da história do budismo, sendo comparado a figuras como Xuanzang. Liang Qichao, um importante intelectual chinês do início do século XX, referiu-se a ele como um “mestre de primeira classe no campo da tradução”.
A famosa lenda segundo a qual, no seu leito de morte, Kumarajiva teria declarado que, se as suas traduções fossem verdadeiras e fiéis ao Dharma, a sua língua permaneceria intacta após a cremação, o que, segundo a lenda, aconteceu, pode ser interpretada, em parte, como uma forma de legitimar a pureza da sua transmissão do Dharma, apesar das transgressões (forçadas ou não) da sua disciplina pessoal.
Referências: The Life of Kumarajiva (500 Yojanas); Kumarajiva (Britannica); Kumārajīva and his contributions to buddhism in china (Dekwatlaos); A Brief Account of Kumarajiva’s Translation Theory and His Translation Achievements (DR Press); Kumarajiva (Encyclopedia.com); kumārajīva – philosopher and seer (Indira Gandhi National Centre For The Arts New Delhi); Kumarajiva – the Great Translator from Kucha (Tsem Rinpoche); Kumārajīva (Wikipedia).
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