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Tristeza: começou a guerra na Europa

Para a geração que cresceu na Europa em tempo de paz, a guerra parece um evento distante. Mas o dia chegou, o governo russo decidiu atacar e invadir a Ucrânia, um pais livre e soberano. Nesta guerra todos perdem, perde o povo russo, os ucranianos, e todos nós também seremos afetados. Este é um triste acontecimento.

“A situação é muito complicada, existem perdas de vidas do lado ucraniano, inclusive de crianças e civis”.

– Inna Ohnivets, Embaixadora da Ucrânia em Portugal. Horas depois de ter começado a invasão.

No budismo a paz é altamente valorizada. Mas o que fazer quando somos atacados e quando todos os diálogos diplomáticos falham? Como dialogar com lideres cuja a única linguagem que conhecem é a da força e da violência? O que fazer perante a tirania? É justo a luta pela liberdade e democracia, valores esses que tanto custaram a conquistar? Faz sentido matar os agressores em nome da defesa, da paz e da segurança mundial? A compaixão implica deixar que sejamos atacados? O que fazer de modo a gerar o mínimo de sofrimento possível no presente e no futuro? O mundo é demasiado complexo e não existem respostas simples. A realidade é diferente da de um mundo ideal. Neste conflito está em causa a direção da humanidade.

O Dalai Lama no artigo The Reality of War, publicado (anteriormente a este conflito) no seu site afirma que: “A maioria de nós foi condicionada a considerar o combate militar como algo excitante e glamoroso – uma oportunidade para os homens provarem a sua competência e coragem. Uma vez que os exércitos são legalizados, sentimos que a guerra é aceitável; no geral, ninguém sente que a guerra é criminosa ou que aceitá-la é uma atitude criminosa. Na verdade, sofremos uma lavagem cerebral. A guerra não é atraente nem glamorosa. Ela é monstruosa.”

No mesmo artigo S. S fala do condicionamento a que as crianças são sujeitas: “Francamente, quando eu era criança, também me sentia atraído pelo militarismo. O uniforme deles era tão inteligente e bonito. Mas é exatamente assim que a sedução começa. As crianças começam a brincar com jogos que um dia lhe causarão problemas. Há vários jogos emocionantes para jogar e roupas para vestir além daquelas usadas para matar seres humanos. De novo, se nós adultos não fôssemos tão fascinados pela guerra, veríamos claramente que permitir os nossos filhos a se tornarem acostumados com os jogos de guerra é extremamente lamentável. Alguns veteranos de guerra me contaram que quando eles atiraram na primeira pessoa se sentiram mal, mas conforme continuaram a matar, se sentiram normais. Com o tempo, podemos nos acostumar com qualquer coisa.”

Infelizmente a realidade nos leva a situações que não queremos, até mesmo o Tibete antes de ser ocupado pelos comunistas chineses lutou pela sua soberania, e o mesmo aconteceu com outras nações budistas envolvidas em conflitos. No artigo citado o Dalai Lama acrescenta: “Quero deixar claro, no entanto, que embora me oponha profundamente à guerra, não estou defendendo a acomodação. Muitas vezes é necessário tomar uma posição firme para combater a agressão injusta. Por exemplo, está claro para todos nós que a Segunda Guerra Mundial foi inteiramente justificada. Ela ‘salvou a civilização’ da tirania da Alemanha nazista, como Winston Churchill tão bem colocou. Na minha opinião, a Guerra da Coreia também foi justa, pois deu à Coreia do Sul a chance de desenvolver gradualmente a democracia. Mas só em retrospetiva podemos julgar se um conflito foi ou não justificado por motivos morais.”

“A Humanidade sofre com a insanidade da ignorância. E os tiranos são a expressão máxima desta triste realidade.”*

– Monge Kōmyō

No livro The Essential Dalai Lama: His Important Teachings, o Dalai Lama declara que :”A paz, no sentido de ausência de guerra, tem pouco valor para quem está morrendo de fome ou frio. Não removerá a dor da tortura infligida a um prisioneiro de consciência. Não conforta quem perdeu os seus entes queridos em enchentes causadas por desmatamentos sem sentido num país vizinho. A paz só pode durar onde os direitos humanos são respeitados, onde as pessoas são alimentadas e onde os indivíduos e as nações são livres.”

Esperemos que este conflito não culmine numa guerra mundial e que todos possamos viver em liberdade e em paz. Acrescento também que não devemos confundir as atitudes hostis dos líderes russos com o seu povo.

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Atualização (28/02/2022)

Mestres/as budistas expressam preocupação e tristeza pelo conflito

Jetsunma Tenzin Palmo diz que: “Infelizmente, isto é o samsara, e o samsara é dominado principalmente pela ganância, agressão e ignorância, além do orgulho, ciúme e outras emoções aflitivas. Foi assim no passado, é agora e certamente continuará no futuro. A história dos seres humanos é uma crónica de guerras, invasões, brutalidade, repressão e caos geral. Nada de novo. Como se diz, o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Então, como praticantes do Dharma, devemos aceitar que, quando nós, humanos, semeamos karma negativo nos séculos passados, é claro que colheremos uma colheita amarga disso. Ao que geralmente respondemos com mais ações negativas… Assim, o ciclo continua. Podemos praticar o TongLen para todos os lados do conflito, incluindo Putin – e também a compaixão geral.”*

Numa outra mensagem Jetsunma afirma que: “O sofrimento das pessoas está realmente além da imaginação! No entanto, com o sofrimento vem a força. Espero que as pessoas confiem na sua bondade inata, espero que as pessoas possam ajudar-se umas às outras e ser solidárias umas com as outras nesta situação tão difícil. Todos têm que cuidar uns dos outros, e ajudar uns aos outros porque se vocês não se ajudarem, quem vai ajudar vocês? E realmente, este é o momento de mostrar força interior, não apenas como membro de uma religião ou grupo étnico, mas mostrar a sua unidade como ser humano. Aqueles que estão sofrendo precisam da ajuda e cuidado uns dos outros para se manterem fortes. É disso que se trata: ficarmos juntos e ajudarmo-nos uns aos outros nestes momentos difíceis.”*

Dalai Lama expressa tristeza pela crise da Ucrânia: “Fiquei profundamente triste com o conflito na Ucrânia. O nosso mundo tornou-se tão interdependente que um conflito violento entre dois países inevitavelmente afeta o resto do mundo. A guerra está ultrapassada – a não-violência é o único caminho. Precisamos desenvolver um senso de unidade da humanidade ao considerar os outros seres humanos como irmãos e irmãs. É assim que construiremos um mundo mais pacífico. Problemas e desacordos são melhor resolvidos através do diálogo. A paz genuína surge através da compreensão mútua e do respeito pelo bem-estar de cada um. Não devemos perder a esperança. O século 20 foi um século de guerra e derramamento de sangue. O século 21 deve ser um século de diálogo. Rezo para que a paz seja rapidamente restaurada na Ucrânia.”*

Pelo menos 352 civis, incluindo 14 crianças, foram mortos desde o início da invasão e 1.684 pessoas ficaram feridas. Mais de 422 mil pessoas fugiram da Ucrânia para países vizinhos e a UE estima que esses valores possam chegar aos 4 ou 7 milhões se não houver uma inversão da situação, o que seria a maior vaga de refugiados na Europa desde a II Guerra Mundial. Há momentos o governo ucraniano confirmou que já foram mortos 5.300 soldados russos.

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Atualização 05/03/2022

Uma tragédia humanitária, saiba como ajudar os refugiados e vítimas da guerra

Mestres e instituições budistas continuam a lamentar a triste realidade que tem estado a acontecer. Há dias a União Budista Europeia deixou a seguinte mensagem: “A União Budista Europeia está profundamente preocupada e triste com a guerra na Ucrânia. Esperamos que as hostilidades terminem em breve e uma solução pacífica para a crise seja encontrada. A guerra afeta a todos nós de maneira prejudicial e, especialmente neste século, é nosso dever tornarmo-nos numa família neste planeta, apoiando-nos e respeitando-nos mutuamente. O diálogo diplomático, a sabedoria e a compaixão devem prevalecer sobre as armas e a agressão. (…) Um momento unificado de prática à luz da crise atual será muito importante para aliviar o sofrimento em nós e nos outros e para que guerras, como a contra a Ucrânia, não ocorram. Este belo mundo não deve ser manchado pelo sangue, mas sim adornado com a flor do amor, que é o dever correto dos seres humanos.”*

Com 10 dias de guerra o número de refugiados já ultrapassa os 1,3 milhões, o que se traduz na migração em massa mais rápida na Europa e na maior desde a II Guerra Mundial. Novas estimativas preveem agora que esse número possa chegar aos 10 milhões. Dentro da própria Ucrânia estima-se que já existam mais de 3 milhões de deslocados. Milhares de civis e soldados já foram mortos e feridos. Além da enorme crise humanitária, animais de companhia, selvagens e a natureza também estão a sofrer com a invasão. As infraestruturas de várias cidades estão a ficar completamente destruídas e os objetos culturais presentes em museus estão em perigo. Pela primeira vez na história centrais nucleares foram atacadas, o que adensa o perigo de uma catástrofe nuclear. Todas as diversas tentativas com vista a parar esta guerra têm sido infrutíferas. A escalada de violência tem aumentado e a maior parte do mundo se posiciona contra o que está a acontecer. O conselho da ONU aprovou uma investigação a crimes de guerra e violação dos direitos humanos. O perigo do conflito culminar numa guerra mundial continua vivo.

Várias organizações humanitárias fazem o que podem para atenuar o sofrimento dos refugiados e vítimas da guerra. A Fundação Budista Tzu Chi, fundada pela mestra Cheng Yen, é uma das organizações envolvidas. A Tzu Chi começou em 2 de março a arrecadar fundos para os refugiados ucranianos que fogem do seu país para a Polónia, vários voluntários também começam a atuar no terreno. Alguns dias antes, Cheng Yen expressou a sua preocupação com aqueles forçados a deixar as suas casas: “Olhando para eles fugindo – alguns carregando crianças pequenas nas costas, segurando-as nas mãos, as mais velhas segurando as menores – grandes famílias estão fugindo em multidões. Não sabemos qual é o destino delas.”* Qualquer pessoa que queira apoiar os esforços da Tzu Chi pode fazer um donativo aqui. Para consultar uma lista de outras organizações aceda ao seguinte link.

Além do conflito na Ucrânia, infelizmente existem muitos outros conflitos no mundo que não devem ser ignorados. No site ONU News pode consultar o que está a acontecer no mundo a este nível e pesquisar na internet formas de ajudar.

A imagem de destaque é meramente ilustrativa, não é uma fotografia do conflito atual.

Leitura recomendada e sugestão de visionamento (links externos):

Veja também:

2 comentários

  1. Gostaria de esclarecer que, como Budista, sou TOTALMENTE CONTRA os valores ocidentais de democracia, liberalismo, direitos humanos, individualismo e outros excrementos.
    Desculpe, mas esse texto parece um lixo saído da boca de George Soros ou do comitê da ONU.
    A verdade é que, se não fosse por Hitler e pelos fascistas, a Índia ainda seria tiranizada pela gra-bretanha. Qualquer asiático sabe disso, que o verdadeiro tirano, pintado de bom moco, tem nome e sobrenome: Winston Churchill.
    Mal ou bem, a China hoje cresce e, com nossos valores de budismo e confucionismo, peito com perfeição o hedonismo promíscuo consumista Ocidental.

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    1. O Ocidente cometeu atrocidades e gerou coisas boas e de grande valia, assim como também o Oriente. Ser budista não implica ser anti-ocidental e rejeitar todo e qualquer tipo de valor surgido no Ocidente. Não existe sistema político perfeito, mas a democracia parece ser o mais benéfico. Thich Nhat Hanh e Dalai Lama, dois grandes mestres budistas, defendem amplamente a democracia e os direitos humanos.

      Mal ou bem, você tem a liberdade para dar a sua opinião, se estivesse na China e falasse contra o sistema político da mesma forma que está a falar contra o Ocidente, provavelmente já estaria atrás das grades. A China comunista invadiu o Tibete e arrasou o budismo, e dentro do seu próprio território – com base na ideologia comunista que você também parece defender e que surgiu pela primeira vez no Ocidente mas que não criou raízes – durante a Revolução Cultural o governo chinês perseguiu o budismo, taoísmo, confucionismo, e outros grupos e aspetos culturais, causando enorme destruição e sofrimento. O budismo tem vindo a recuperar e a ser restabelecido, mas a liberdade ainda é precária e a qualidade discutível. Ainda há poucos anos uma antiga e enorme academia budista foi parcialmente demolida. Felizmente em Taiwan o Budismo Chan ainda é preservado.

      Hoje a China é tão ou mais consumista que o Ocidente. O capitalismo e globalização têm muitos aspetos negativos, mas também tem aspetos positivos. A China tem coisas maravilhosas, mas não está isenta de coisas reprováveis. E da mesma forma o Ocidente.

      No budismo há espaço para seguidores com vários tipos de ideais políticos (sejam eles mais à esquerda ou à direita, eu pessoalmente me identifico mais com o centro-esquerda), mas é surpreendente que você “como budista” defenda ideologias extremistas, tal foi a magnitude do sofrimento causado. Todo o tipo de tirania, seja a perpetuada por Hitler ou baseada em outras ideologias, não são “os nossos valores”, não são os valores deste site, e como tal, qualquer comentário nesse sentido pode ser reprovado. Você tem toda a liberdade para discordar do texto, mesmo que grande parte sejam citações de mestres budistas, mas sugiro que tenha mais cuidado com as palavras de forma a que não viole a Política de Comentários do site.

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