Budismo Geral

Budismo e o Aborto

Este é um assunto delicado e não há uma resposta única e consensual. A recomendação é que se evite ao máximo ter de recorrer ao aborto, mas há casos específicos em que poderá mesmo ser a melhor solução. Há escolas e mestres com mais abertura para esta situação e outros que se posicionam de forma contraria. Segue de seguida o que algumas mestras e mestres pensam sobre o assunto.

Jetsunma Tenzin Palmo

Numa entrevista na Revista TPM, a Tenzin Palmo disse o seguinte sobre o aborto:

Não posso falar apenas do meu ponto de vista, porque, em geral, é claro que o aborto significa tirar a vida de um ser humano. E tirar a vida do seu próprio filho, mesmo que seja um embrião, não é uma coisa boa. Ficar grávida sem nenhum tipo prevenção só porque é fácil fazer um aborto obviamente não é uma coisa boa. Mas, por outro lado, há circunstâncias quando, por exemplo, a gravidez acontece como resultado de um estupro ou porque a garota é muito nova e não tem condições de ter o bebê. A verdade é que a mulher deve ter o direito de escolher. É o nosso corpo e nós precisamos ter o direito de fazer nossas próprias escolhas. Mas devemos ter conhecimento das implicações. Não significa apenas “se livrar” de algo sem importância, você está “se livrando” do seu próprio filho. As mulheres devem ter consciência do que estão fazendo e o direito de fazer suas próprias escolhas.

Monja Isshin

A Monja Isshin abordou o tema num podcast do Zendo Virtual, ficam aqui algumas anotações:

Segundo a sua opinião pessoal e o seu entendimento do budismo, considera que o budismo não se opõe ao aborto porque é uma questão individual, que não cabe a nós estar ditando essas regras para os outros e cada caso é um caso e cada pessoa é responsável pelo seu próprio karma. Ela diz que Individualmente não se sente no direito de julgar outra mulher.

A questão fundamental é: o que leva a menos sofrimento?

Em certas situações será que trazer uma criança para este mundo é a melhor solução? Há situações que é praticamente uma morte em vida, refere a Sensei.

A Monja diz que pessoalmente não faria isso, mas como mulher não dá o direito a ninguém de mandar no seu corpo.

Em primeiro lugar o mais adequado é facilitar o acesso aos contracetivos e enfatizar a educação sexual. É natural que um ser humano vá ter relações sexuais então isso deve ser feito com os devidos cuidados e sabedoria.

Os que defendem o direito à vida na maioria das vezes não estão lidando com o tipo de situações complicadas que existem. Existem casos em que o feto está com defeitos gravíssimos, casos de gravidez não desejada… Mandar a criança para adoção muitas vezes também é traumático e por experiência própria a Sensei refere que nem sempre é um bom lugar para se estar. Há crianças nos EUA que passam horrores, passando de casa para casa, sofrendo abusos e ficando perdidas no sistema burocrático. Há situações terríveis. É uma resposta muito fácil dizer que alguém da família vai cuidar ou para dar para adoção.

[Observação: uma situação que a Sensei não referiu, é que algumas dessas crianças que ela falou que passam por situações terríveis nos EUA, poderão se tornar em potenciais serial killers. A realidade é que muitos dos serial killers passaram por situações terríveis na infância, uma grande maioria tiveram pais ausentes e sofreram abusos.]

A Sensei considera que há mais sofrimento por causa dos abortos ilegais feitos em condições precárias do que se fossem legalizados com controles e todo um processo de aconselhamento, de entrevistas, de triagem, com psicólogos, assistentes sociais, etc.

A Monja reforça que é a sua opinião pessoal e a maneira como entende o budismo, que é a responsabilidade de cada um, de cada mulher.

Há coisas no ser humano que não podemos mudar, então já que existem, como o consumo de álcool, prostituição e o aborto, temos de criar estruturas que permitam diminuir o sofrimento o máximo possível. Até hoje não se conseguiu impedir e fazer com que deixasse de existir o aborto, então é preciso enfrentar a realidade e fazer os ajustes para que isso ocorra com o menor sofrimento possível.

Monge Genshô

Num artigo no blog O Pico da Montanha, Genshô Sensei fala o seguinte:

(…) Existe uma outra forma de olhar as questões humanas que não é a meramente legal, esta pode levar, como aconteceu recentemente, a obrigar uma mulher com um feto sem cérebro, condenado à morte automática após o nascimento, a arrostar toda a gravidez sabendo o que a esperava na sala de parto, porque a lei a proibiu de interromper a gravidez, já que o aborto era “ilegal”, posto que esta eventualidade não estava prevista nas exceções dos legisladores.

O olhar que pode alterar tudo é o de ver os eventos, não da maneira engessada de um texto legal, mas através da consideração do sofrimento que envolve os participantes, o olhar que o budismo propõe.

Se olharmos através desta ótica veremos que lei alguma poderá abranger todas as nuances do que ocorre com a humanidade, e que os casos apresentados precisam de um intérprete flexível com um olhar para o sofrimento. Visto assim, um juiz, com as melhores informações, poderia decidir se o caso acima era, não um crime, mas uma intervenção destinada a diminuir o sofrimento da mãe e de toda a família que circundava uma tragédia, já de per si intensa. Este intérprete não poderia tardar em seu julgamento, sua decisão é urgentíssima e não se presta ao lento trâmite a que estamos acostumados em nosso judiciário, um rito veloz precisa ser criado.

Quanto a grossa maioria dos abortos, usados como método anticoncepcional tardio, basta olhar de novo pela ótica do sofrimento maior, melhor o acesso livre a anticoncepção que a pílula abortiva, melhor a pílula do dia seguinte que um aborto cirúrgico, melhor o apoio a um nascimento do que o remorso de uma vida inteira com uma voz ao fundo da consciência se perguntando, “como seria o filho que não deixei nascer”?

Para o budismo a questão deve ser: “Qual a maneira de agir que provoca menor sofrimento a todos os envolvidos, todos inclui o ser que deseja nascer, e abrange o tempo infinitamente longo das consequências.”


Em Portugal o aborto é legal desde 2007. Estima-se que antes da despenalização o número de abortos era cerca de 20 a 30 mil por ano1, após a despenalização esse valor nunca foi ultrapassado, tendo tido um pico de cerca de 19 mil. Desde 2011 tem-se registado progressivamente uma diminuição de interrupções de gravidezes. Em 2018 os números não ultrapassaram os 15 mil, e ainda englobam uma percentagem significativa de estrangeiras. Estatísticas positivas para o número populacional do país e que resultam do bom funcionamento dos centros de saúdes na área do planeamento familiar. No Brasil o aborto é ilegal.

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