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Budismo, a Ortotanásia e a Eutanásia

A ortotanásia é um termo para definir a morte natural, sem a interferência da ciência. É o contrário da distanásia, que é a prática de prolongar a vida através de meios artificiais. Um exemplo de ortotanásia é não manter um paciente ligado a um aparelho que prolongue a sua vida.

A eutanásia é o acto de terminar com a vida de um enfermo incurável de maneira controlada e assistida por um especialista. Um exemplo de eutanásia é quando um tetraplégico decide pôr termo à sua vida com a sua morte a ser provocada de forma medicamente assistida.

Conheça neste post o que alguns mestres têm a dizer sobres este assunto, assim como uma opinião pessoal.

Ortotanásia e Distanásia

Trecho de: O Livro Tibetano da Vida e da Morte, de Sogyal Rinpoche. Apêndice 2: Questões sobre a morte. Editora: Prefácio Ano de Edição: 2001

“Em geral, há o perigo de um tratamento de apoio à vida que se limite a prolongar o processo da morte, vir a provocar desnecessários apegos, iras e frustrações no moribundo, em especial se não for esse o seu desejo. Os familiares que têm de enfrentar decisões difíceis, assustados com a responsabilidade de deixarem que o seu ente querido morra, deveriam reflectir se existe esperança real na recuperação, ou se a qualidade dos dias e horas finais desse ente podem ser mais importantes do que mantê-lo vivo. Para além disso, como na realidade nunca sabemos se a consciência ainda se encontra no corpo, podemos estar a condená-lo a um aprisionamento num corpo inútil.

Dilgo Khyentse Rinpoche disse:

Usar mecanismo de apoio à vida quando alguém não tem possibilidade de recuperação é inútil. É muito melhor deixá-lo morrer naturalmente numa atmosfera pacifica e realizar acções positivas a seu favor. Quando não há esperança, não é crime desligar as máquinas, uma vez que a pessoa nunca poderá sobreviver e estamos a prolongar-lhe a vida artificialmente.

As tentativas de ressuscitação por vezes, também podem ser inúteis e constituírem uma perturbação desnecessária para o moribundo. Um médico escreveu:

O hospital explode um espasmo de actividade frenética, dúzias de pessoas correm num esforço final para ressuscitar o enfermo. O paciente, praticamente morto, é enchido de drogas, espetado por dúzias de agulhas e agitado por choques eléctricos. Os nossos momentos finais são perfeitamente documentados pelos ritmos do coração, pelos níveis de oxigénio no sangue, pela leitura das ondas cerebrais, etc. Depois, quando o ultimo médico desiste, a tecno-histeria chega finalmente ao fim.

[…]

E quando os doentes terminais que decidem desligar-se a si mesmos dos maquinismos? Ao acabarem com as suas vidas, estão a cometer uma acção negativa? Kalu Rinpoche responde a esta pergunta com precisão:

A pessoa que decide que já sofreu o suficiente e deseja que lhe permitam que morra encontra-se numa situação que não é possível designar virtuosa ou não virtuosa. Não podemos censurar ninguém por tomar uma tal decisão e não se trata de um acto karmicamente negativo, é apenas o desejo de evitar o sofrimento, aspiração fundamental de todos os seres vivos. Por outro lado, também não é um acto particularmente virtuoso… Em vez de ser um desejo de acabar com a vida, é o de terminar com o sofrimento. Assim, será talvez um acto karmicamente neutro.”

Eutanásia

Trecho do Artigo do Monge Genshô no seu blog “O Pico da Montanha”:

“(…) Para iluminar a questão seria interessante dizer que a visão generalizada no budismo tem base em episódios como os dos suicídios de Vakkali e Channa, portadores de doenças dolorosas e irreversíveis, aceitos por Buddha com base na compaixão e no fato de que eles eram seres iluminados com mentes livres de egoísmo e portanto aptos a morrer com a melhor mente possível, o ponto mais valorizado no zen budismo, a mente no momento da morte.

O princípio budista sempre retorna para a pergunta sobre como diminuir o sofrimento em lugar de valorizar princípios frios acima de quaisquer considerações baseadas nos sentimentos de compaixão e piedade. Muitas vezes princípios legais rígidos que se sobrepõem a análise particular de cada caso, como sempre propôs o budismo, sem respostas fechadas que não consideram as múltiplas facetas da vida humana.

Cito abaixo um precedente legal japonês, que é influenciado pelo pensamento budista e que pode ajudar nossos legisladores a levar a nação a um nível mais alto de pensamento ético em relação a compaixão com o sofrimento alheio e as numerosas pessoas que ficam deitadas em camas, inconscientes e presas a canos e fios, com altos custos para famílias e sociedade e sofrimento absurdo para si mesmas.

Declaro de antemão que desejo que meus familiares não permitam que isto suceda comigo, e que meu leito seja desocupado para aqueles que podem usa-lo para se curar:

O caso é usualmente citado como sendo a “Decisão da Corte Suprema de Nagoya de 1962″.  No julgamento, a corte identificou seis condições que devem ser preenchidas para se ter permissão legal para a prática da eutanásia: a enfermidade é considerada terminal e incurável pela medicina atual e a morte é iminente;  o paciente deve estar sofrendo de uma dor intolerável, que não pode ser aliviada;  o ato de matar deve ser executado com o objetivo de aliviar a dor do paciente;  o ato deve ser executado somente se o próprio paciente fez um pedido explícito;  cabe ao médico realizar a eutanásia; caso isto não seja possível, em situações especiais será permitido receber assistência de outra pessoa;  a eutanásia deve ser realizada utilizando-se métodos eticamente aceitáveis (22 December 1962, Nagoya Court, Collected Criminal Cases At High Court, vol.15, n. 9, p. 674). (De artigo sobre eutanásia de Leo Pessini)”

Qual a visão do budismo sobre eutanásia? | Monja Coen Responde

Eutanásia | Monge Genshô

Opinião pessoal

Este é um assunto que não é fácil, e existem várias perspetivas dentro do budismo. Em relação à distanásia (prolongar a vida por meios artificiais), é mais consensual que é algo a ser evitado, quanto à eutanásia (terminar com a vida), já não é tão preto no branco. A percepção que tenho, é que no geral existe um posicionamento menos favorável, as escolas japonesas talvez sejam as que estejam mais abertas à eutanásia.

Na minha visão, acho que independentemente das crenças de cada um, da religião e visão de mundo de cada um, as pessoas devem ter a liberdade de escolha, desde que essa escolha não impacte negativamente na comunidade e sociedade, como é o caso. Essa é uma escolha que deve ser pessoal e não governamental ou institucional.

Vejamos por exemplo o caso de um tetraplégico, que fica assim na juventude, que não se pode mexer do pescoço para baixo e fica condenado a viver assim numa cama durante 30 ou 60 anos. Li que muitas pessoas nesse estado para suportarem as dores psicológicas e físicas necessitam de grandes quantidades de drogas (medicamentos), e muitas mesmo que estejam a ser “drogadas” ou não, chegam ao fim de vida completamente destruídas psicologicamente, literalmente malucas mesmo. Quem está nessa situação passa por sofrimentos terríveis.

É fácil dizer o que os outros devem fazer quando não somos nós a vivermos essa situação. Não acho que deva ser eu ou o Estado a definir a vida dessas pessoas. Se eu tivesse nessa situação, gostava de ser eu a decidir o que fazer e não o Estado.

Cada caso é um caso, e por isso não há respostas simples. Em algumas situações mesmo ficando num estado vegetativo pode ser algo positivo. Por exemplo Ajahn Chan, um dos maiores mestres budistas do último século, viveu os seus últimos dias praticamente em estado vegetativo, não falava e não se mexia, emitia alguns sons e dependia da ajuda dos monges para tudo. O seu estado permitiu às pessoas contemplarem a impermanência e de acumularem méritos cuidado dele.

Nós, não estando no nível de Vakkali e Channa, que foi referido anteriormente, ao optarmos pela eutanásia não estaríamos a cometer uma ação não virtuosa? Será que numa situação como a de um tetraplégico poderíamos optar por meditar a maior parte do tempo, manter a lucidez e ate nos desenvolvermos espiritualmente? Será que a nossa presença poderia ser muito útil para outros? Cair na situação de ficar num corpo imóvel teria sido devido ao karma? Seria essa uma boa oportunidade para “purificar” karma? Termos a oportunidade de recorrermos à eutanásia e acabarmos com o sofrimento não seria isso também uma oportunidade kármica, da mesma forma que temos a oportunidade de tratar de doenças? E como fica o karma do profissional de saúde que vai provocar a morte do paciente? É uma ação neutra uma vez que não existe malevolência e até pode existir compaixão, ou não é totalmente inócua?

Existem vários fatores a se considerar, e por isso não há uma resposta única e simples. Também por esse motivo penso que a despenalização seria melhor porque permitiria que cada um pudesse exercer a sua escolha pessoal.

Este é um assunto complexo. Penso que abreviar a vida deve ser sempre evitado, mas cada caso é um caso, acho que devemos respeitar a opção das pessoas que estão nesse tipo de situação. Pessoalmente, se tivesse numa situação como essa, preferia terminar a vida de uma forma mais pacifica do que ficar décadas num estado terrível e eventualmente morrer já num estado psicologicamente degradado.

Sugestão de leitura:

Recomendação de filme:

  • Mar Adentro: É um filme espanhol de 2004. Baseia-se em eventos da vida real e relata a história de Ramón Sampedro, um marinheiro que ficou tetraplégico após um acidente de mergulho, mostrando a sua luta pelo direito de se matar. Contando com a ajuda da sua família e amigos além de uma advogada que pegou no caso gratuitamente. (Sinopse da Wikipédia)

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Veja também:


Sobre Dilgo Khyentse RinpocheSogyal RinpocheMonge Genshô, Monja Coen

Lista de Mestres e Professores
 | Lista de Livros, eBooks e Weblivros

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