Este artigo explora a figura histórica de Yashodhara, desconstruindo a narrativa de que teria sido uma simples vítima abandonada por Siddhartha. Através da análise dos textos tradicionais e do contexto social da Índia antiga, demonstra-se que a sua atitude foi uma escolha consciente de autonomia e abnegação. Yashodhara recusou um novo casamento e, mais tarde, ordenou-se monja e alcançou a iluminação plena. Assim, a sua trajetória é apresentada não como um conto trágico, mas como um ato heroico de amor e sabedoria que contribuiu para a libertação espiritual de todos os seres.
Tradução autorizada do artigo “Yashodhara- Buddha’s Ex Wife; Victim or Heroine?”, 29/06/2026, de Ayya Yeshe | Ver original.
Yashodhara é uma figura interessante na vida do Buda, alguém que, para feministas como eu, por vezes nos deixa um pouco desconfortáveis. Feministas não-budistas que conheço atacaram por vezes o Buda por “abandonar” a sua família para seguir a jornada do herói, considerando isso um ato egoista e irresponsável. Como se terá sentido Yashodhara ao ser abandonada pelo marido logo após ter dado à luz? Fazer mal aos seres não é incongruente com ser um bodhisattva?
Numa vida anterior, Yashodhara era uma mulher deslumbrante que deu flores ao futuro Buda para que este oferecesse ao Buda Dipankara, pedindo-lhe que fosse o seu companheiro ao longo de várias vidas e, de facto, estiveram casados em muitas delas. Ela devia ter imensas qualidades para ser a companheira de um futuro Buda e mãe do seu filho. Sabemos também que o futuro Buda (Siddhartha) parou para olhar para a sua esposa e filho antes de partir, mas sabia que, se os acordasse, nunca escaparia à teia de intrigas do palácio nem alcançaria o despertar para se tornar um mestre para o mundo. Se Yashodhara foi o amor da vida de Siddhartha ao longo de muitas vidas e não apenas uma esposa submissa num casamento arranjado, certamente que ela conhecia as aspirações mais profundas do coração dele. Sabendo disso, ela ainda assim escolheu nascer como sua companheira. E é aqui que Yashodhara nos mostra o que o amor realmente é: compreender o nosso parceiro e amá-lo de forma a permitir-lhe seguir aquilo a que atribui mais valor. Por vezes isso significa deixar ir, mesmo que não seja isso que queremos para nós próprios. Yashodhara fez um grande sacrifício por todos nós (não querendo com isto dizer que o despertar não seja possível no contexto da família, mas talvez não no contexto de alguém que se vai tornar um Buda que gira a roda do Dharma).
Sabemos que, depois de Siddhartha partir, Yashodhara usava vestes cor-de-laranja simples e fazia apenas uma refeição por dia. Sabemos que, quando o Buda regressou, ela incentivou o filho a “receber a sua verdadeira herança” (o caminho espiritual) e que ela própria se ordenou como monja e alcançou o despertar. Sabemos que foi uma mestra inspiradora e um grande apoio para o Buda. Portanto, aquilo que algumas pessoas podem perceber como um fracasso mundano tornou-se numa vida de sucesso espiritual. O Buda partilhou o despertar supremo com a sua família e com o mundo e, a sua mãe de criação, a ex-mulher, o filho, o meio-irmão e os primos tornaram-se todos iluminados. Quando vemos isto, há um carinho e uma lealdade reais demonstrados à sua família, filho e companheira. Ele também salvou uma vez o seu clã de ser massacrado pelo Rei Ajatasattru.
Yashodhara não foi abandonada; ela escolheu facilitar o despertar do homem que amava profundamente e, finalmente, abriu mão dele para o vasto e profundo benefício do mundo. O Buda não era apenas um pai e parceiro ausente e desapegado emocionalmente; ele tinha-se treinado durante vidas para este despertar e partiu para trazer um benefício duradouro a todos os seres.
Tathaloka Bhikkhuni escreve:
“Os textos retratam frequentemente Yashodhara como tendo outras opções de casamento após a partida do seu marido. A renúncia de um marido era uma das razões estabelecidas em vários códigos de leis indianos para que uma mulher pudesse casar-se novamente de forma legítima. Dependeu exclusivamente dela ter assumido a sua própria ‘renúncia ao lar’ durante o período de busca de Siddhartha, quando tinha outras opções.
Com a renúncia de Rāhula e a de Mahāpajāpatī Gotamī, os textos oferecem aquilo que parece ser um retrato honesto de Nandā, a meia-irmã do Buda. Ela, que mais tarde também é retratada como tendo-se tornado uma bhikkhunī arahantī e uma das principais discípulas, entra na vida monástica de forma um pouco relutante, ‘apenas por amor aos seus parentes’. Já Yasodharā não é retratada desta forma.. Pelo contrário, está registado que ela alcançou a entrada na corrente no momento do regresso do Buda a Kapilavastu, tal como Mahāpajāpatī Gotamī e Suddhodana. É neste contexto que ela incentiva o filho Rāhula a ‘pedir a sua herança’.
Como uma mulher então livre, segundo as antigas tradições indianas, acredito que, se quisesse, poderia ter pegado na sua riqueza pessoal e regressado à sua terra natal. Ou poderia ter escolhido continuar a viver entre a comitiva do palácio, com os seus parentes e sogros — a família que conhecia há 20 anos.
Sendo alguém que já tinha alcançado a entrada na corrente, e depois de Mahāpajāpati Gotamĩ e as corajosas quinhentas mulheres terem renunciado à vida doméstica, estabelecido a Bhikkhuni Sangha e alcançado o estado de arahant, faz-me sentido que ela também — com a sua própria comitiva de pessoas igualmente entusiastas — fizesse o mesmo e se ordenasse. E que, da mesma forma, em pouco tempo (um dos textos fala numa quinzena, ou seja, no prazo de duas semanas), alcançasse a iluminação completa, juntando-se às fileiras dos discípulos arahant.”
Está claro que Yashodhara não era indefesa. Ela escolheu estar com o futuro Buda durante muitas vidas, conhecendo as suas aspirações. Também escolheu renunciar e não voltar a casar, e alcançou a libertação final. A sua história não é um conto trágico. Quantas mulheres podem dizer que o marido que se divorciou delas as ajudou a atingir a iluminação? A renúncia do Buda não foi uma fuga à responsabilidade, mas sim a partida em busca de um objetivo maior, algo que ele perseguia há várias vidas e que aqueles que lhe eram próximos valorizavam; caso contrário, não teriam estado próximos dele. Sendo uma das suas maiores apoiantes, Yashodhara demonstrou o seu amor de forma verdadeira ao deixar partir o companheiro, permitindo-lhe alcançar o desejo mais profundo do seu coração: a libertação de todos os seres, que ele mais tarde partilhou com ela e com o mundo.
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