O Ādittapariyāya Sutta (SN 35.28), conhecido como o Discurso do Fogo, está entre os primeiros ensinamentos proferidos pelo Buda e é um dos mais impactantes. Foi ensinado em Gayāsīsa (colina de Gaya) a uma assembleia de 1000 monges que anteriormente eram ascetas praticantes de ritos do fogo. A metáfora do fogo era portanto particularmente familiar a esses ouvintes, mas também integra uma imagem recorrente nos ensinamentos do Buda, cuja extinção caracteriza o Nibbāna.
A recitação em páli do Discurso do Fogo no Mosteiro Sumedhārāma é uma das recitações deste sutta mais primorosas que já ouvi. Inclusive já tive o prazer de acompanhar a sua recitação. Este é também um dos cânticos budistas que mais aprecio.
O Buda percorre neste discurso as seis bases sensoriais: olho, ouvido, nariz, língua, corpo e mente; juntamente com os seus objetos: formas, sons, odores, sabores, tangíveis e fenómenos mentais. Para cada base, o discurso inclui a consciência correspondente, o contacto e as sensações agradáveis, dolorosas ou nem agradáveis nem dolorosas que surgem na dependência desse contacto.
Tudo isso é descrito como estando a arder (em páli, Sabbam Ādittam, por vezes também traduzido como “tudo está em chamas”). Em chamas com o quê? Com os fogos da paixão ou apego (rāga), aversão ou raiva (dosa) e delusão ou confusão (moha), e também com o sofrimento ligado ao nascimento, envelhecimento, morte, tristeza, lamentação, dor, pesar mental e desespero.
É como um fogo constante queimando dentro de nós que impulsiona as nossas decisões. Estamos constantemente inquietos na procura de algo que nos agrade e a rejeitar o que nos desagrada. Por vezes as chamas estão bem fortes, outras vezes mais leves. Como diz António Variações na música “Estou além”: “Não consigo dominar, este estado de ansiedade; (…) estou bem, aonde não estou, porque eu só quero ir, aonde não vou.” Pensamos que quando conseguirmos o último smartphone que saiu, a comida mais saborosa, um bom casamento, etc, seremos realmente felizes. O problema, é que todas essas coisas não acalmam realmente a nossa inquietação. Conseguimos o que queríamos, mas continuamos a queimar por dentro, e logo estamos à procura de outra coisa. E nessa procura incessante, muitas vezes toldada pela delusão ou confusão mental, frequentemente acabamos por cometer ações inábeis. O Buda vai ainda mais além ao mencionar a mente, que inclui os nossos pensamentos, a forma como nós processamos a nossa experiência da realidade, etc.
A metáfora mostra o carácter aflitivo, condicionado e impermanente da experiência sensorial, que aquilo que nos fascina e a que nos agarramos não nos oferece segurança perante o sofrimento. Ao compreender isso, o discípulo nobre desenvolve desencantamento (nibbidā) em relação a esses aspectos da experiência. Do desencantamento surge o desapego ou desvanecimento da paixão, (virāga) e do desapego surge a libertação (vimutti) e a realização do Nibbāna (cujo significado literal é, precisamente, “extinguir” ou “apagar” o fogo).
Isso significa uma repulsa pelos sentidos? Não. O ensinamento não é uma condenação do corpo, dos sentidos ou do mundo, nem uma ordem para deixar de sentir, é mais como um diagnóstico. De igual modo, o desencantamento não é aversão, pois seria alimentar precisamente um dos fogos que o discurso identifica. O desencantamento é a perda da ilusão de que essas experiências podem proporcionar satisfação duradoura ou definitiva. O discurso mostra assim o sofrimento ligado a essas experiências e o caminho para a libertação.
Numa outra formulação, conhecida como as três raízes prejudiciais, em vez de rāga é mencionado lobha, geralmente traduzido como “cobiça” ou “ganância”. Os termos estão relacionados e de certa forma rāga (também caracterizada como desejo intenso ou avidez) pode ser entendido como uma manifestação de lobha.
Esta é uma interpretação do sutta a partir do ponto de vista de um mero praticante, para um entendimento mais aprofundado é sugerido consultar um professor budista qualificado.
Saiba mais (links externos):
- Tradução do sutta em português (Sutta Central)
- Texto canónico em páli (Sutta Central)
- Versão litúrgica expandida para cântico (Mosteiro Sumedharama)
Veja também:
- Os 5 Agregados (skandhas)
- Desapego e Apego
- Felicidade no budismo: caminhos para a verdadeira alegria
- Os 4 tipos de Apego (upadana) no budismo: da teoria à libertação
- O Altar Budista e a Prática Devocional
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