A aplicação da pena de morte suscita diversas questões éticas. Partindo da perspectiva budista e de conceitos como o karma, a impermanência e a compaixão, questiona-se se a justiça retributiva não acaba por reproduzir o próprio ciclo de violência que pretende travar, e propõem-se caminhos que conciliem a necessária responsabilização com a possibilidade de transformação.
Tradução autorizada do artigo “Justice, Compassion, and the Cycle of Violence“, publicado no Buddhistdoor, a 17/10/2026 | Ver original.
Durante séculos, as execuções públicas serviram como demonstrações do poder do Estado — concebidas para advertir potenciais infratores, tranquilizar o público de que a justiça tinha sido feita e proporcionar uma conclusão visível aos atos de violência que abalavam as comunidades. As multidões reuniam-se para assistir, por vezes com solenidade, outras com entusiasmo e, ocasionalmente, com celebração aberta. Com o tempo, grande parte do mundo afastou-se destes espetáculos, reconhecendo que havia algo profundamente inquietante em reunir pessoas para testemunhar a retirada deliberada de uma vida humana. No entanto, o impulso subjacente às execuções públicas nunca desapareceu por completo. Nos Estados Unidos, acontecimentos recentes colocaram em nítido foco esta tensão entre a justiça e a vingança.
No início deste mês, o secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou planos para transmitir em direto a execução por fuzilamento de Nidal Hasan, um ex-psiquiatra do Exército condenado por matar 13 pessoas e ferir dezenas de outras em Fort Hood, no Texas, em 2009. Marcada para 3 de dezembro, a execução seria a primeira realizada pelos militares dos EUA desde 1961. A proposta tem provocado críticas por parte de legisladores, líderes religiosos e membros do público, incluindo pessoas que consideraram que a transmissão da morte de Hasan seria uma afronta à dignidade daqueles que ele tinha morto.
A 15 de outubro, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que a transmissão em direto não avançaria, embora a execução em si permanecesse agendada. Trump defendeu a pena capital como um elemento dissuasor, ao mesmo tempo que reconheceu as objeções a tornar a morte publicamente visível.
Esta reviravolta foi um desenvolvimento encorajador, mas a proposta original merece a nossa atenção. Ela sugere que o antigo desejo de exibir o castigo sobreviveu notavelmente bem à era digital. O que outrora atraía multidões para as praças públicas pode agora ser oferecido a milhões de espectadores nos respetivos telemóveis e computadores. A tecnologia mudou, mas a mensagem subjacente permanece reconhecível: aqueles que cometem infrações graves serão levados a sofrer, e a sociedade será convidada a testemunhar o seu castigo. Essa mensagem deve inquietar os budistas, não porque acreditemos que as ações prejudiciais devam ficar sem resposta, mas porque compreendemos com que facilidade a raiva e o desejo de retribuição se podem normalizar nas nossas vidas individuais e coletivas.
Apenas algumas semanas antes, outra execução nos EUA tinha atraído a atenção internacional. A 30 de setembro, o Tennessee tentou executar Christa Pike, que tinha sido condenada à morte pela sua participação no homicídio de Colleen Slemmer, de 19 anos, em 1995. Pike, que tinha 18 anos à data do crime, tinha passado três décadas na prisão. Após receber duas administrações do fármaco de injeção letal pentobarbital, ela permaneceu viva. A execução foi abandonada e Pike acabou por ser levada para o hospital em estado crítico. Desde então, foi reconduzida à prisão, enquanto o governador do Tennessee, Bill Lee, suspendeu execuções adicionais para o resto do ano, aguardando uma investigação.
Conforme o BDG noticiara antes da execução agendada, Pike tinha abraçado o budismo durante o seu encarceramento e pedido que o professor budista Rev. Mikey Noechel a acompanhasse nos seus momentos finais.* Os dois planeavam praticar a meditação de amor-benevolente à medida que ela se aproximava da morte. De acordo com os relatos da tentativa de execução, Pike exprimiu desejos de paz e bondade para com os presentes, incluindo as pessoas que testemunhavam a tentativa do Estado de pôr fim à sua vida.
Há algo de profundamente perturbador nesta cena. Por um lado, o Estado estava a aplicar uma sentença imposta por um ato de extraordinária crueldade. Por outro, encontrava-se uma mulher que passara a maior parte da sua vida adulta na prisão, a tentar enfrentar a sua morte iminente com o cultivo da boa vontade. Nenhuma das circunstâncias anula a outra. O horror do homicídio de Slemmer permanece, tal como o sofrimento suportado pela sua família nas décadas seguintes. A sua mãe, May Martinez, tem manifestado o desejo de ver a sentença cumprida, e a execução falhada trouxe nova incerteza a uma tragédia que já consumiu tanto da sua vida. O sofrimento deles merece a nossa compaixão tanto quanto o da condenada.
Ao mesmo tempo, os ensinamentos budistas encorajam-nos a ponderar a possibilidade de uma pessoa mudar profundamente ao longo da vida. Um crime cometido na juventude pode ter consequências irreversíveis, mas o indivíduo responsável não permanece congelado no momento do seu cometimento. Saber se Pike desenvolveu verdadeiramente o remorso, a sabedoria ou a compaixão não é algo que os observadores possam determinar a partir de algumas palavras ou gestos relatados. Contudo, a prática budista fundamenta-se, em parte, na convicção de que até os hábitos profundamente enraizados de cobiça, ódio e delusão podem ser transformados. Negar essa possibilidade por completo seria rejeitar algo essencial ao Dharma.
A experiência de Pike não constitui uma intersecção isolada entre a prática budista e a pena de morte americana. Em março de 2025, a Luisiana executou Jessie Hoffman Jr., que se tinha tornado budista enquanto estava encarcerado. Hoffman foi executado por via da hipoxia por azoto, um método que os seus advogados argumentaram que o impediria de se dedicar a práticas de respiração meditativa no momento da morte. O seu conselheiro espiritual budista, o Rev. Reimoku Gregory Smith, acompanhou-o durante as suas horas finais. Antes da execução, Hoffman ter-se-á mantido com um exemplar de The Heart of the Buddha’s Teaching, de Thich Nhat Hanh, e pedido uma leitura sobre os quatro imensuráveis: o amor-benevolente, a compaixão, a alegria empática e a equanimidade.*
No Texas, o praticante budista Patrick Murphy obteve suspensões da execução em 2019, após contestar a recusa do Estado em permitir a entrada do seu conselheiro espiritual budista na câmara de execução. Os capelães cristãos e muçulmanos tinham permissão para acompanhar os reclusos, mas o sacerdote budista de Murphy inicialmente não a tinha. O litígio chegou ao Supremo Tribunal dos EUA e levantou questões importantes sobre a igualdade religiosa e os direitos das pessoas encarceradas a praticar a sua fé no fim da vida.*
Por sua vez, a história de Jarvis Jay Masters — cujas décadas de prática budista no corredor da morte da Califórnia têm sido documentadas em livros e entrevistas — fornece outro exemplo de como a transformação espiritual pode ocorrer em circunstâncias de confinamento extremo e incerteza. Masters tem também continuado a afirmar a sua inocência do crime pelo qual foi condenado, lembrando-nos de que as questões de culpabilidade e de justiça institucional podem, por si só, ser complexas.*
Estes indivíduos têm histórias distintas e as suas circunstâncias não devem ser tratadas como intermutáveis. Não obstante, as suas histórias ilustram uma profunda tensão entre um sistema judicial organizado em torno da punição definitiva e uma tradição budista que enfatiza a possibilidade de um desenvolvimento moral contínuo. Uma sentença de morte declara efetivamente que, independentemente do que uma pessoa possa vir a ser no futuro, o Estado determinou que a sua vida deve terminar por causa daquilo que fez no passado. Os ensinamentos budistas convidam-nos a examinar mais atentamente a relação entre estas duas realidades.
A doutrina do karma é por vezes mal interpretada como um sistema de recompensas e castigos cósmicos, em que o sofrimento é simplesmente a consequência merecida de uma má conduta anterior. Contudo, o karma diz respeito fundamentalmente à ação intencional e à forma como as nossas ações moldam a experiência futura. Não se trata de uma teoria da justiça divina, nem estabelece que o sofrimento presente de uma pessoa deva ser celebrado devido às suas transgressões passadas. Em vez disso, desafia-nos a reconhecer as consequências contínuas das nossas escolhas e a possibilidade de cultivar intenções mais hábeis.
Esta compreensão é inseparável do ensinamento budista da impermanência. Somos moldados pelas nossas ações, mas não estamos permanentemente fixados por elas. A pessoa que cometeu um crime há décadas está ligada à pessoa que existe hoje através de um processo contínuo de causas e condições. O passado não pode ser desfeito. Contudo, o futuro permanece aberto a novas possibilidades. Para os budistas, a verdadeira responsabilização deve incluir o reconhecimento de ambas as realidades — as consequências duradouras dos atos prejudiciais e a capacidade humana de transformação.
Há outra dimensão nestes temas que merece igual atenção. A violência não se cinge ao indivíduo que comete um crime ou às instituições que o punem. Ela pode enraizar-se nas expectativas culturais, na linguagem política e na forma como as comunidades compreendem a força, a autoridade e a justiça. Quando figuras públicas descrevem os inimigos como merecedores de destruição, quando a força militar se torna uma fonte de entretenimento, ou quando o sofrimento de indivíduos desprezados é tratado como algo a celebrar, reforçamos hábitos mentais que tornam a violência futura mais fácil de justificar.
A proposta de transmissão em direto da execução de Hasan oferece um exemplo particularmente contundente. O seu propósito declarado era demonstrar as consequências do terrorismo e, talvez, dissuadir futuros ataques. Contudo, a difusão da morte de uma pessoa também teria convidado quem assistia a participar num ato de violência de Estado na qualidade de espectadores. Alguns poderiam ter assistido com pesar, outros com curiosidade e ainda outros com satisfação. O perigo aqui está não apenas nas imagens difundidas pelo mundo, mas nas atitudes que estas poderiam encorajar e reforçar. Quando o homicídio se torna um espetáculo público, a distinção entre a justiça e a vingança pode ficar perigosamente esbatida.
O sistema de justiça criminal norte-americano fala frequentemente de um ponto final, particularmente nos casos que envolvem homicídio e pena capital. Para algumas famílias, o cumprimento de uma sentença pode proporcionar um sentido significativo de que a justiça foi feita. Outros descobrem que a morte do infrator pouco faz para diminuir o seu luto. Ambas as respostas merecem respeito. No entanto, a compreensão budista do sofrimento sugere que nenhum ato isolado consegue encerrar de forma limpa as consequências complexas de uma morte violenta. As famílias continuam a viver com a perda. As comunidades carregam memórias de medo e raiva, enquanto aqueles que têm a tarefa de administrar a punição também devem viver com aquilo que fizeram.
A nossa responsabilidade, portanto, estende-se para além da questão de saber se um determinado prisioneiro merece clemência. Inclui o questionamento sobre que formas de justiça são mais propensas a criar uma sociedade em que menos pessoas sejam prejudicadas. A pena capital merece escrutínio não apenas porque põe fim à vida do condenado, mas porque representa uma decisão coletiva sobre o lugar da morte nas nossas instituições morais e políticas.
A justiça é necessária. A responsabilização também. Mas nenhuma delas nos exige que renunciemos à compaixão. Se a prática budista nos ensina algo sobre o ciclo da violência, é que não se pode pôr fim ao sofrimento de forma consistente através do cultivo de mais intenções daquelas que o produziram. A nossa tarefa consiste em encontrar formas que protejam a vida, através da resposta aos atos ilícitos, reconhecendo o sofrimento e deixando espaço para a possibilidade de mudança.
Esse não é um caminho fácil, mas é um caminho que vale a pena perseguir, tanto nas nossas relações pessoais como nas sociedades que ajudamos a criar.
Veja também:
- Tempo de Espera, Tempo de Vipassana [Documentário completo]
- Vipassana: O Caminho da Libertação | Meditação em Presídio Brasileiro [Documentário completo]
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