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Budistas manifestam-se pelo controlo exclusivo do Templo Mahabodhi

O Templo Mahabodhi, em Bodhgaya, assinala o local onde o Buda realizou o despertar ou iluminação. O local serve de inspiração para milhões de budistas em todo o mundo e anualmente milhares de pessoas visitam o templo em peregrinação. Apesar de estar intimamente ligado à história budista e da sua importância para os budistas, menos de metade dos administradores do templo são budistas.

Imagine que a Grande Mesquita de Meca teria mais administradores cristãos que muçulmanos; ou que o Vaticano teria uma administração composta por uma maioria muçulmana. Faz sentido? Parece que não… Mas o que acontece com o Templo Mahabodhi é precisamente isso, a administração é composta por 4 budistas e 5 hindus, incluindo um administrador distrital como presidente (que geralmente não é budista).

Os budistas consideram que o complexo é mal administrado e que sozinhos fariam melhor. Nada os move contra os hindus, mas da mesma forma que os budistas não participam na administração dos templos hinduistas mais importantes, também consideram que os hinduistas não têm que fazer parte da administração do templo budista mais ilustre, e ainda para mais em maioria.

Vários grupos budistas têm por isso se manifestado contra a situação vigente. Os protestos mais intensos tiveram inicio no ano passado antes o Buda Jayanti, também conhecido como Buda Purnima, que é a data que assinala o nascimento, a iluminação e o Parinirvana do Buda, e que ocorreu a 12 de maio desse ano. Os protestos se estenderam desde então e já este ano houve novas manifestações.

Mas porque o templo mais importante para os budistas tem uma administração composta maioritariamente por hindus? Isso acontece porque o complexo é regido pela Lei do Templo de Bodhgaya de 1949, que coloca a administração do templo sob responsabilidade de um comité composto por 4 budistas e 5 hindus, incluindo um administrador distrital, conforme já mencionado anteriormente. É essa lei que os manifestantes pedem que seja mudada, argumentando também que a lei viola as proteções constitucionais dos artigos 25, 26, 29 e 30, que garantem o direito de praticar e administrar assuntos religiosos sem interferência.

Anandraj Ambedkar, neto de Babasaheb Ambedkar, afirmou que a antiga estrutura administrativa foi criada quando havia poucos budistas no país, com exceção de pequenas comunidades no Nordeste, Ladakh e Himachal Pradesh. No entanto, após Babasaheb Ambedkar e centenas de milhares dos seus seguidores se converterem ao budismo em 1956, a comunidade cresceu em número, com a maioria dos budistas da Índia concentrada em Maharashtra.

“Como não havia budistas na região, o templo era administrado por sacerdotes hindus chamados pandyas. A lei de 1949 foi criada levando em consideração a situação da época. Alguns budistas de Bengala Ocidental também foram incorporados ao comité. Depois de 1950, temos uma Constituição que garante a cada comunidade religiosa o direito de administrar os seus assuntos religiosos. O budismo é uma religião diferente. O templo agora deve ser entregue aos budistas”, disse Ambedkar.

Um ministro do governo do estado indiano Sikkim em maio de 2025 instou o governo central a intervir na disputa em curso sobre a Lei do Templo de Bodhgaya, destacando as preocupações da comunidade budista quanto à gestão do Templo Mahabodhi. O ministro enfatizou que os sentimentos de milhões de budistas na Índia e em todo o mundo devem ser respeitados e protegidos. Ele classificou a estrutura atual como obsoleta e injusta e argumentou que o templo, por ser um santuário budista reverenciado mundialmente, deveria ser totalmente administrado pelos próprios budistas, sem interferência de qualquer outro grupo religioso.

“O Templo Mahabodhi é o local de peregrinação mais sagrado para os budistas. É profundamente doloroso que a comunidade não tenha autoridade completa sobre seu próprio centro espiritual. Isso não é apenas uma questão de lei – trata-se de fé, património e direitos religiosos”, declarou o ministro durante uma conferência de imprensa realizada em Gangtok.

Diversas organizações budistas acolheram favoravelmente a declaração do ministro, afirmando que ela fortalece a reivindicação por reformas. A All India Bhikkhu Sangha, em comunicado reiterou que o Templo Mahabodhi deve ser declarado um santuário budista independente, sob controlo budista e livre de interferências políticas ou religiosas.

O ministro de Sikkim também propôs a formação de um comité de alto nível composto por académicos budistas, monges, especialistas jurídicos e funcionários do governo central para reavaliar a atual Lei do Templo de Bodhgaya e sugerir emendas que reflitam as aspirações atuais da comunidade budista.

Essa questão ganhou uma nova atenção em meio à crescente conscientização sobre os direitos das minorias e a autonomia cultural na Índia. Muitos na comunidade budista veem isso como um momento decisivo que pode abrir caminho para maior liberdade religiosa e respeito às instituições espirituais.

O ministro afirmou ainda que o seu governo enviaria uma carta formal ao governo central e também mobilizaria o apoio de outros estados do Nordeste com populações budistas significativas. Ele apelou à liderança central para que tratasse o assunto com urgência e sensibilidade, em consonância com a profunda herança budista da Índia e a sua posição internacional como promotora da paz e da harmonia.

Durante as celebrações do Buda Jayanti em 2025 as tenções em torno do Templo Mahabodhi aumentaram. Bhante Vinaycharya, um monge proeminente e defensor declarado da revogação da Lei de 1949, foi preso após um incidente.

“Se todos os templos, mesquitas, igrejas e gurdwaras do país são administrados pelas suas respectivas comunidades, por que os monges budistas não deveriam ter autoridade completa sobre o Mahabodhi Mahavihara, um local de peregrinação budista mundialmente famoso?”, proferiu o Bhante Vinacharya.

Um membro hindu do comité disse que a principal razão para a inclusão de hindus é o reconhecimento do local como património compartilhado por budistas e hindus e que o templo também tem uma Shivalinga (representação anicónica sagrada do deus hindu Shiva). Os budistas refutam o argumento dizendo que não há nenhuma Shivalinga e que essa alegação é uma tentativa de usurpar o local.

Segundo o Dr. Vilas Kharat, no século VI o rei hindu Shashanka tentou destruir a Árvore Bodhi incendiando-a. Registos históricos, incluindo os do viajante chinês Xuanzang, indicam que houve uma tentativa de remover a estátua de Buda do Templo Mahabodhi e substituí-la por uma de Shiva. Nos tempos contemporâneos, o ex-governador de Bihar, Rajendra Arlekar, visitou o local e o declarou abertamente um templo de Shiva. Outra ideia propagada é que Buda era uma reencarnação de Vishnu, o que é contraditório aos próprios ensinamentos do Buda.

Pragyasheel, um membro budista do comité da administração do Templo de 1998 a 2001, afirmou que as generosas doações são mal geridas. “Essas doações não são gastas na administração de hospitais e escolas, nem em outras comodidades. Elas não são utilizadas para expandir o complexo ou melhorar as instalações para os monges. Em vez disso, a maior parte dos fundos é destinada ao pagamento dos salários dos funcionários do complexo e à cobertura das despesas relacionadas ao alojamento de visitantes VIP ao santuário.” Ele também afirmou que disputas internas são frequentes e enfatizou que o local é mundialmente conhecido pela iluminação do Buda sob a árvore Bodhi, e que a questão da existência de qualquer outra divindade é irrelevante. “Porque o complexo Mahabodhi está sob o controle dos hindus? Nenhum local religioso no mundo é controlado por outra religião,” destacou Pragyasheel.

A campanha pela revogação ou alteração da lei tem as suas raízes no final do século XIX, quando o Venerável Bhante Anagarika Dhammapala iniciou os esforços para restaurar o controlo budista sobre o templo.

Fontes: freepressjournal, boroktimes, themooknayak, thewire.

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