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Haiku: o momento presente congelado em palavras

O Haiku é um tipo de poesia curta que teve a sua origem no Japão no séc. XVII. O Haiku tradicional japonês consiste em três frases ou versos que contêm um kireji, ou “palavra de corte”, 17 unidades fonéticas semelhantes a sílabas num padrão 5-7-5, e um kigo, ou referência sazonal. O termo Haiku é a transliteração que se aproxima da fonética japonesa e é utilizada em inglês e em português de Portugal, no português do Brasil é mais comum o termo Haikai.

O Haiku é considerado uma poesia contemplativa, que valoriza a natureza, as cores, as estações dos anos, os contrastes e as surpresas. Está alinhado com a ideia tradicional japonesa que defende que o homem faz parte do mundo natural e deveria viver em harmonia com esse mundo.

“O Haiku é tudo o que acontece neste momento, nesta época, neste lugar.”
– Matsuo Bashô

“O poema ‘congela’ um instante no tempo, deixando espaço para a imaginação de quem o lê.”
– do panfleto “Como fazer um Haiku”, da JAL Foundation


Conteúdo:


Origens

Tanka

Tanka significa “poema curto”. É um estilo de poesia clássica japonesa e um dos principais géneros da literatura japonesa. É formado por 31 sílabas divididas em 5 versos e 2 estrofes num padrão 5-7-5-7-7. A primeira estrofe é formada por 5-7-5 sílabas, chamada de kami no ku e a segunda é formada por 7-7 sílabas, chamada de himo no ku.

Renga

Renga significa “verso ligado” e teve origem no Tanka. A diferença é que o Renga é uma poesia colaborativa. Uma pessoa encarrega-se de escrever a primeira estrofe, chamada de hokku, e outra de escrever a segunda estrofe, chamada de wakiku. Essa forma poética foi-se disseminando e passou a liga-se a outras estrofes da mesma medida, somando centenas de versos. As sequências de renga eram tipicamente compostas ao vivo durante encontros de poetas.

Os mestres de renga mais famosos foram o Sôgi (1421–1502) e o Matsuo Bashô (1644–1694), que também se tornou o mestre mais famoso de Haiku.

Hokku torna-se independente

Como vimos, hokku é a parte de abertura do renga, formado num padrão 5-7-5. Com o tempo os escritores começaram a escrevê-los como poemas independentes. E assim surge esta forma poética, que também passou a ter certos elementos característicos. O nome Haiku foi atribuído no final do século XIX pelo escritor Masaoka Shiki.

Há versões históricas diferentes para a origem do Haiku. Outras fontes históricas consideram que o Haiku vem do Waka, um poema longo, e que o Tanka e o Renga, presentes no Waka, surgem socialmente de modo autónomo.

Características e Estrutura

Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.
- Matsuo Bashô
Quietude -
O barulho do pássaro
Pisando em folhas secas.
- Ryushi

Tal como grande parte da arte tradicional japonesa, o Haiku é fortemente influenciado pelo Budismo Zen e o conceito de wabi-sabi costuma estar muito presente. Assim como na fotografia, o poeta de Haiku congela o momento presente, não o que aconteceu ou acontecerá. Um fragmento da realidade é captado e registado para que o leitor possa sentir essa mesma experiência.

No Haiku tradicional podemos notar várias destas características: minimalismo, transitoriedade, simplicidade, objetividade, serenidade, sobriedade, casualidade, solidão, não intelectualidade, bucolismo, anti-sentimentalismo, condensação, uso de imagens, ausência de título, ausência de rima, ausência de sentimentalismos e emoções, referência sazonal (kigo) e à natureza, palavra de corte (kireji), 3 versos com 17 silabas (5-7-5), sem ego e composto no tempo presente.

O corte é uma palavra utilizada no final do primeiro ou do segundo verso para dividir o poema em duas partes, adicionar profundidade psicológica e evitar que o poema pareça ser composto apenas por um verso ou frase. No ocidente, o corte pode ser representado por sinais de pontuação no final do primeiro ou do segundo verso. Porém, o uso de pontuação não é obrigatório e quando é utlizado nunca deve ser exagerado para evitar a poluição visual. Deve-se evitar fazer o Haiku apenas com uma só parte ou com três partes (não confundir com um ou três versos), o chamado Haiku prateleira.

O uso de adjetivos, advérbios, locuções adverbiais, interjeições e metáforas deve ser cauteloso. Deve-se evitar o antropomorfismo, as comparações e não se usa o gerúndio.

“Compartilhar um haiku é compartilhar um pedaço da sua experiência de vida e sensibilidade de maneira pessoal e muito especial. A leitura deles nos dá não somente momentos da experiência do escritor como também momentos de nos mesmos.”
– William Higginson

Na escrita ideogramática japonesa e na transliteração para a escrita fonética, os versos têm as silabas todas contadas (como já ocorreu num período inicial da literatura portuguesa), não há preocupação com as rimas, mas há a construção interna de efeitos sonoros. Devido às características e diferenças entre a lingua nipónica e portuguesa, desde sempre que a tradução vem sendo um desafio e os estudiosos vêm se debruçando sobre a forma que o pequeno poema deveria ou não ter.

O consenso é que se deve buscar um poema com 17 sílabas no formato preferencial de 5-7-5 (padrão: curto-longo-curto). Preferencialmente também devem ser usadas silabas poéticas (ou métricas) em vez de silabas gramaticais. Alguns poetas usam mais, ou menos silabas, mas desde que o padrão seja mais ou menos mantido geralmente é considerado Haiku. No entanto essas também não são regras absolutas e há escritores que nomeiam de Haiku qualquer poema curto de 3 versos. Além da forma há escritores que também se aventuram para além do conteúdo que o Haiku tradicional possui.

“O haiku converte-se na anotação rápida, verdadeira recriação, de um momento privilegiado: exclamação poética, caligrafia, pintura e escola de meditação, tudo junto”.
– Otávio Paz

Hidekazu Masuda Goga, em 1993 na revista brasileira CAQUI nº 0, resume as seguintes características e regras de um Haiku tradicional:

  1. O Haicai é [um] poema conciso, formado de 17 sílabas, ou melhor, sons, distribuídos em três versos (5-7-5), sem rima nem título e com o termo de estação do ano (kigo).
  2. O Kigo é a palavra que representa uma das quatro estações: primavera, verão, outono e inverno; p. ex., IPÊ (flor de primavera), CALOR (fenômeno ambiental de verão), LIBÉLULA (inseto de outono) e FESTA JUNINA (evento de inverno).
  3. Cada estação do ano tem o próprio caráter, do ponto de vista da sensibilidade do poeta; p. ex., Primavera (alegria), Verão (vivacidade), Outono (melancolia) e Inverno (tranquilidade).
  4. O haicai é [um] poema que expressa fielmente a sensibilidade do autor. Por isso:
    1. respeitar a simplicidade;
    2. evitar o “enfeite” de “termos poéticos”;
    3. captar um instante em seu núcleo de eternidade, ou melhor, um momento de transitoriedade;
    4. evitar o raciocínio.
  5. A métrica ideal do haicai é a seguinte: 5 sílabas no primeiro verso, 7 no segundo e 5 no terceiro; mas não há exigência rigorosa, obedecida a regra de não ultrapassar 17 sílabas ao todo, e também não muito menos que isso. E a contagem das sílabas termina sempre na sílaba tônica da última palavra de cada verso.
  6. O haicai é poemeto popular; por isso usa-se palavras quotidianas e de fácil compreensão.
  7. O dono do haicai é o próprio autor; por isso, deve-se evitar imitação de qualquer forma, procurando sempre a verdade do espírito haicaísta, que exige consciência e realidade.
  8. O haicaísta atento capta a instantaneidade, qual apertar o botão da câmera para obter o “snap”.
  9. O haicai é considerado como uma espécie de diálogo entre autor e apreciador; por isso, não se deve explicar tudo por tudo, a fim de tornar possível a associação de ideias por parte de quem o avalia.
  10. O haicai é uma criação poética emanada da sensibilidade do haicaísta; por isso, deve-se evitar expressões de causalidade ou de sentimentalismo vazio.
Passo a passo
sobre a montanha no verão -
de repente o mar.
- Kobayashi Issa
Rio seco
Silêncio sob a ponte
apenas o vento.
- Rodrigo Siqueira

Muitos Haikus são acompanhados por uma pintura (haiga), conforme na imagem de destaque deste artigo, e no mundo de hoje é comum a utilização da fotografia. Quanto aos Haikus feitos por crianças é habitual serem ilustrados por elas mesmas.

Também no japão se originou a forma literária Haibun, que combina a prosa e o Haiku. A gama de haibun é ampla e frequentemente inclui a autobiografia, o diário, ensaio, conto, reflexão, diário de viagem, etc. O termo “haibun” foi usado pela primeira vez pelo Matsuo Bashô, que também é um proeminente escritor desse estilo literário.

Há ainda uma forma poética semelhante ao Haiku na sua construção, chamada de Senryū. Esse estilo tendem a ser sobre as fraquezas humanas e ao contrário do Haiku tradicional, o senryū não inclui um kireji (corte) e geralmente também não inclui um kigo (referência a uma estação). A linguagem geralmente é coloquial, de conteúdo humorístico, jocoso, irónico ou satírico. Trata principalmente do quotidiano da vida, dos sentimentos, hábitos, atos e vicissitudes do homem e da sociedade.

Dicas para fazer um Haiku

Como vimos acima o Haiku tem certas características e algumas regras simples. Muitos poetas seguem à risca essas mas também há outros que fogem do padrão tradicional. Para fazer um Haiku senguem-se agora algumas dicas, que podem ou não ser seguidas totalmente.

Lembre-se destes 3 pilares

  • Forma: 17 sílabas distribuídas preferencialmente em três linhas no padrão 5-7-5 e utilização do kireji (corte). Geralmente são contadas silabas poéticas em vez de gramaticais e a contagem termina na última sílaba tónica.
    • O 1º verso expressa algo que existe, ideia central, base;
    • O 2ºverso introduz novidade, fenómeno, interfere;
    • O 3ºverso é relativo à conclusão.
  • Conteúdo: O conteúdo deve estar ligado à concisão de uma ideia ou de um estado de espírito.
  • Kigo: Deve ter a referência a uma estação do ano.

Evitar

  • Emoções;
  • Sentimentalismo;
  • Intelectualidade;
  • Metáforas
  • Clichês;
  • Ego;
  • A piada gratuita, embora não seja necessário excluir o humor;
  • Temas como a política, crimes, etc;
  • Escrever sem ser na primeira pessoa do singular.

Valorizar

  • A natureza;
  • O momento presente;
  • As palavras simples;
  • Os contrastes da luz e das sombras, das cores, dos sons.

Conheça bem as estações, os termos sazonais e os elementos naturais

Quase todos os poetas japoneses de Haiku possuem um saijiki. Um saijiki é um almanaque que lista termos sazonais divididos em sete grandes categorias:

  • A Estação: os nomes das estações e meses; a temperatura; a duração ou brevidade do dia; solstícios e equinócios.
  • O Céu e os Elementos: fenómenos astronómicos ou meteorológicos; qualidades de luz ou sombra.
  • A Terra: paisagens terrestes ou marítimas; florestas; campos; montanhas; fluxos; rios; lagos.
  • Humanidade: comida; roupas; trabalhos; desportos; lazer; artes e ofícios; casa; humores sazonais.
  • Observâncias: aniversários; feriados; festivais; todas as atividades, comidas ou decorações associadas a tais eventos.
  • Animais: mamíferos; anfíbios; répteis; pássaros; peixes; moluscos; insetos.
  • Plantas: plantas ou árvores em flor; folhagens; jardins e flores silvestres; frutas; fungos; outras formas de vegetação.

Analise outros Haikus

Vejamos este exemplo:

Em cima do túmulo,
cai uma folha após outra.
Lágrimas também…
– Masuda Goga (1911-2008)

Em/ ci/ma/ do/ /mu/lo.
5 silabas poéticas, a contagem termina na última silaba tónica.

cai/ u/ma/ fo/lha a/pós/ ou/tra
7 silabas poéticas, como a palavra “folha” termina com vogal e a palavra “após” começa com vogal, “lha” e “a” contam só como uma sílaba, a contagem termina na última sílaba tónica.

Lá/gri/mas/ tam/bém
5 silabas poéticas, a contagem termina na última silaba tónica.

O poema é centrado em 3 elementos: túmulo folha e lágrimas. kigo: a folha que cai remete para o outono. Kireji: a palavra “outra” encerra a imagem construtiva dos dois primeiro versos, dá lugar à imagem seguinte e dispara emoção.

Este é um exemplo que segue todas as regras tradicionais, mas como já foi referido para ser considerado um Haiku não é absolutamente necessário a observação incondicional de todas as regras.

Como devemos ler a poesia Haiku?

Tam Huyen Van, no livro “O Bosque de Bambus”, responde o seguinte:

“Com certeza, jamais com um coração insensível aos detalhes sutis das palavras ali representadas, e que procuram falar sobre a maravilha da existência. O Haiku é minimalista, simples, quase banal. A criação poética Zen procura atingir a nossa sensibilidade menos evidente, menos racional. Muito do sentido último desta poesia poderá ser captado por todos que possuam um olhar atento e uma mente livre. O exercício de percepção da beleza dos haiku depende muito de nossa capacidade contemplativa, nossa sensibilidade à linguagem sutil do mundo. Ao ler um haiku, nossa mente e coração devem estar afinados com a delicadeza do mundo. Perceber as sílabas, sentir o ritmo, captar o instante coloquial — eis as três pequenas regras para atingirmos o sentido da arte poética aqui apresentada.

Belas palavras, se atingem a mente mas não o coração, tornam-se um frio conhecimento vazio de sonhos; se elas atingem o coração mas não a mente, transformam-se em ilusão romântica, e perdem sua sabedoria. Aquele que sabe receber belas palavras no coração e na mente em perfeita união, atingirá a sua correta plenitude e valor. A poesia zen não se lê ingenuamente, e nem racionalmente; ela é experimentada como em uma prática de simples e puro zazen, onde o nosso espírito deve se manter unido à nossa mente de uma forma fluida e casual, liberto de qualquer tipo de rigidez, paixão ou imprecisão.”

Matsuo Bashô, o mais famoso mestre de Haiku

Matsuo Bashô foi o poeta mais famoso do período Edo no Japão. Ele foi reconhecido pelos seus trabalhos na forma de poesia colaborativa e posteriormente pelos seus Haikus e, ainda hoje é considerado o maior mestre de Haiku e reconhecido não só no Japão mas também internacionalmente. Muitos dos seus poemas são reproduzidos em monumentos e locais tradicionais. Além da poesia, ele também é conhecido pelos seus ensaios sobre viagens.

A sua família era descendente dos samurais. Ele ganhava a vida como professor mas acabou por renunciar à vida social e urbana dos círculos literários e começou a vagar por todo o Japão para obter inspiração para os seus poemas. Ele diz aos seus discípulos que não basta apenas seguirem os passos dos mestres, mas “buscar o que eles buscaram”.

Bashô praticava o Budismo Zen, a meditação e adotou os principio da filosofia karumi. Segundo a Japanese Wiki Corpus, Karumi é um estado que um poeta pode alcançar seguindo os ensinamentos do budismo. O poeta se conectar profundamente com a natureza ou o seu entorno, sente a sua essência, e a partir daí expressa o que sentiu através da poesia.

Haikus variados

Ah, o velho poço,
uma rã salta,
som da água.
– Matsuo Bashô

Primavera:
Neblina matinal sobre
Uma montanha sem nome
– Matsuo Bashô

Admirável aquele
Cuja vida é um contínuo
relâmpago
– Matsuo Bashô

Pétala a pétala
caem rosas amarelas –
o som da cascata.
– Matsuo Bashô,
haiku da imagen de destaque

Doente em viagem
sonho em secos campos
Ir-me enveredar
– Matsuo Bashô, o seu último haiku

Grão de areia.
Em sua pequenez, a
eternidade.
– Tam Huyen Van

Pacificada,
a mente permanece –
silêncio zen.
– Tam Huyen Van

Frágil e leve –
orvalho sob a folha.
Quando cairá?
– Tam Huyen Van

O ar a tremular —
A cada golpe da enxada
O cheiro da terra.
– Rankô

A cada manhã,
No céu sobre o meu telhado,
A mesma cotovia?
– Jôsô

Ao derreter-se a neve,
A aldeia se enche
De crianças!
– Kobayashi Issa

Referências: Editora Pangeia, Wikipedia, Tricycle, Português, Japanese Wiki Corpus, Livro “O Bosque de Bambus” de Tam Huyen Van. Imagem de destaque: Pintura e Haiku de Bashô (Domínio Público).

Sugestão de leitura (link externo):

Veja também:

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