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Avatar: A Lenda de Aang

Avatar: O Último Mestre do Ar (The Last Airbender), também conhecida em alguns países como Avatar: A Lenda de Aang, é uma brilhante série de animação que inclui vários paralelos com o budismo. Foi criada por Bryan Konietzko e Michael Dante DiMartino para o canal Nickelodeon e conta as aventuras de Aang, o atual sucessor de uma longa linhagem de Avatares. Ele e os seus amigos têm a missão de restaurar o equilíbrio do mundo e pôr fim à Guerra dos 100 Anos, travando a expansão e o domínio global da Nação do Fogo.

A série passa-se num mundo fictício influenciado pelas artes marciais, cultura e mitologia asiática. O público-alvo são as crianças, mas dada a profundidade da série, atingiu também um público adulto. A obra contém componentes sociopolíticos, históricos, psicológicos, filosóficos, espirituais, entre muitos outros. A linguagem visual e a composição, a influência cinematográfica, a coreografia, a construção de mundos, a narrativa, o desenvolvimento das personagens, atenção aos detalhes e a banda sonora de altíssima qualidade produzida por Jeremy Zuckerman, colocam a série num patamar de excelência. Além disso, a mensagem e os ensinamentos que transmite reforçam ainda mais a sua profundidade, o que ajuda a explicar o impacto duradouro que tem em tantos espectadores. Tudo isto faz de Avatar uma grande obra-prima.

Amazing Shots of AVATAR: THE LAST AIRBENDER (Canal YouTube: Amazing Shots)

O mundo de Avatar é composto pelas Tribos da Água do Norte e do Sul, Reino da Terra, Nação do Fogo, e Nómadas do Ar. Há personagens que têm a capacidade de dominar elementos e outras não, sendo o Avatar o único com a capacidade da dominar os 4 elementos. A maioria dos animais nesse mundo são uma mistura de dois ou mais animais reais, por exemplo, o lémure-voador é uma mistura de lémure e morcego com comportamento de gato.

A palavra avatar vem do sânscrito avatāra, que significa “descida”. No hinduísmo ela representa a manifestação corporal ou a descida de um ser divino à Terra. O Aang é um avatar, mas a sua característica assemelha-se mais ao conceito tulku do Budismo Tibetano. Um tulku é geralmente entendido como a manifestação reconhecida de um mestre anterior, associada à continuidade de uma linhagem espiritual e ao benefício dos seres, embora existam pequenas variações de interpretação entre tradições e contextos. Um exemplo de linhagem de tulkus é a dos Dalai Lamas.

Na série o Aang foi reconhecido como um Avatar em parte pelo mesmo processo geralmente utilizado no reconhecimento de tulkus. A forma de como o Aang foi reconhecido foi basicamente a mesma do 14º Dalai Lama. A cultura dos Nómadas do Ar, da qual faz parte o Aang, foi inspirada na cultura tibetana. O mestre do Aang chama-se Gyatso. O mestre de Korra (filho de Aang na sequela) chama-se Tenzin. Tenzin Gyatso é precisamente o nome do 14º Dalai Lama. Além disso, o Aang também pode ser comparado a um bodhisattva.

O Aang foi ensinado pelos monges a ser uma pessoa pacifica. Ele é vegetariano e apenas uma criança que ainda tem muito que aprender, mas que carrega a responsabilidade de acabar com a Guerra dos 100 anos. Para isso, terá que derrotar o Senhor do Fogo, enfrentando o grande dilema de ter de lutar sem trair os seus valores.

Why Avatar the Last Airbender is a Masterpiece (Canal YouTube: Flick Fanatics)

Para além da figura principal, a série destaca-se também pela riqueza das outras personagens.

Katara é oriunda da Tribo da Água do Sul, é profundamente empática e sempre disposta a ajudar. Assume frequentemente o papel de guia emocional dos seus companheiros. O domínio da água reflete a sua personalidade, fluída, adaptável, e poderosa quando necessário.

Sokka é o estratega do grupo. Não possui a capacidade de controlar um elemento, mas compensa essa ausência com inteligência, criatividade e coragem.

Toph é cega desde o nascimento, mas consegue “ver” o mundo pelas vibrações do solo. Tem uma personalidade irreverente, independente e destemida. A Toph é uma das figuras que traz a inclusividade para a série.

Zuko inicia a sua jornada consumido pela raiva. Ele quer recuperar a honra perdida e conquistar aprovação do pai, o Senhor do Fogo. Para isso ele obsessivamente tenta capturar o Avatar. Ao longo da série vamos compreendendo a motivação do personagem. Zuko tem uma das redenções mais belas da ficção e exemplifica que a transformação é possível.

Iroh é o tio do Zuko e um dos personagens mais sábios e serenos. Ele foi um antigo general da Nação do Fogo. É conhecido pela sua paciência e amor pelo chá. Ao longo da obra tenta direcionar o Zuko para o caminho correto. Para Iroh, a verdadeira força nasce do equilíbrio interior, da compaixão e da capacidade de aprender com todas as experiências, sejam elas de alegria ou de sofrimento. Iroh é um dos melhores mentores da ficção.

Estas são algumas das personagens de maior relevância entre muitas outras.

As artes marciais no mundo Avatar foram baseadas em artes marciais reais: Fogo – Shaolin do Norte, Água – Tai Chi, Terra – Hung Gar, Ar – Ba Gua Zhang. Apenas Toph foge a regra, ela tem o seu próprio estilo de luta, o Louva-a-deus do Sul.

Nuns momentos específicos da série ouvimos o cântico “Namo Amituofo Shin Di”. Namo é uma palavra páli e sânscrita que significa homenagem, reverência ou saudação respeitosa, e está também ligada à ideia de curvar-se reverentemente; Amituofo é a transliteração chinesa do nome Amitabha, o Buda da Luz Infinita. Amituofo funciona ainda, em alguns contextos do Budismo Chinês, como invocação devocional, recitação e saudação religiosa. Quanto ao significado de Shin Di não sei exatamente qual é e nem se é usado nas recitações/cânticos do Budismo Chinês, porém Shin a principio neste contexto significa mente-coração; Shin Din possivelmente significa algo como “do fundo do meu coração”, “com todo o meu coração”, ou “com todo o meu ser”; Basicamente pode dizer-se que esse cântico significa “Homenagem ao Buda da Luz Infinita, do fundo do meu coração”, ou “Curvo-me perante o Buda da Luz Infinita”.

Aang Becomes Ocean (Soundtrack S1)
The Lion-turtle (Soundtrack S3)

Sem querer dar spoilers, um dos momentos mais marcantes da série acontece perto do final com a declaração: “A mente verdadeira pode resistir a todas as mentiras e ilusões sem se perder. O coração verdadeiro pode suportar o veneno do ódio sem ser ferido. Desde o tempo sem começo, a escuridão prospera no vazio, mas sempre cede à luz purificadora.” Várias interpretações foram dadas, desconheço exatamente no que os autores estariam pensando, irei no entanto dissecar a frase parte por parte e dar a minha interpretação partindo de uma perspetiva budista.

A mente e o coração são sinónimos, no Japão é usada a palavra kokoro. Mente-coração representa o aspeto psicológico, cognitivo emocional e volitivo da mente. A mente verdadeira ou coração verdadeiro significa a verdadeira natureza da nossa mente, a natureza não obscurecida da mente, que é livre de ilusões, livre de fixação, pura, luminosa e vazia de um eu inerente; no entanto, como não estamos despertos, temos a nossa mente obscurecida, assim como a água na sua essência é pura, mas que pode estar contaminada por sedimentos e impurezas.

O veneno do ódio é um dos 3 Venenos Mentais descritos no budismo, sendo os outros dois a ganância (apego, mente aquisitiva) e a ignorância ou ilusão. O veneno do ódio também está relacionado com a raiva, a má vontade, a aversão, o não querer. Estes 3 venenos dão origem a outros estados mentais negativos, são a base do nosso pensamento ilusório e acabam guiado tudo o que nós fazemos. São esses 3 venenos que obscurecem a nossa mente.

O Vazio ou vacuidade está relacionado com o conceito de anatta (não-eu) e a originação interdependente. A vacuidade basicamente significa que todos os fenómenos são vazios de uma identidade intrínseca, isto é, não existem por si mesmos, de modo independente e autónomo, apenas existem na dependência de causas, condições e outros fenómenos. O vazio não é a escuridão ou ausência de luz, mas a própria natureza da realidade, carregando também o significado de abertura ou potencial.

Tendo como base esses conceitos, a frase pode ser entendida como uma expressão poética da natureza desperta da mente. A “mente verdadeira” ou “coração verdadeiro” não é uma alma permanente, mas a mente livre de fixação, ilusão e ego inerente. Quando essa natureza é realizada, os 3 venenos perdem o seu poder de dominar a mente, e no despertar pleno são erradicados pela raiz. A “escuridão” simboliza a ignorância e a confusão acumuladas desde tempos sem princípio, enquanto que a “luz purificadora” simboliza a sabedoria que dissipa essas obscuridades. Assim, a frase aponta para a possibilidade de purificação, da libertação, do despertar ou iluminação, sugerindo que a verdadeira resposta ao ódio não é a oposição violenta, mas sim a compaixão, capaz de transformar a situação a partir de um estado de consciência purificada.

Avatar Trailer (Canal YouTube: Allagea)

Sugestão de leitura (links externos):

Bodisatva.com.br: “Se você é uma ou um praticante budista, tem um filho pequeno e, depois da conversão, anda com medo do que o pimpolho anda vendo pela TV, jogando na escola, se influenciando por aí, saiba que nem só de inferno vive a mídia. (…)

Os detalhes peculiares e interessantes estão, por exemplo, no paralelo Avatar|Tulku. Ou seja, o Avatar também é uma reencarnação de um Avatar anterior, chamado Roko. Ele aparece para o menino, apontando caminhos, buscando encorajá-lo, mostrando que, na verdade, eles são a mesma pessoa. Também o Avatar é reconhecido através de testes muito parecidos com aqueles que se fazem para localizar os grandes mestres reencarnados. E isso acontece num monastério, onde Aang convive com centenas de outros mongezinhos que brincam e se divertem, numa espécie de reprodução dos cenários que vemos em filmes como A Copa e Samsara.

Também é muito interessante ver como, apesar de ele ser um Avatar reconhecido, ele precisa treinar como todos os mestres budistas. Nesse aprendizado, ele se mostra incrivelmente humano e tipicamente infantil (não infantilóide), o que o aproxima muito do público telespectador: fica irritável quando não consegue aprender logo, não tem muita paciência pra meditar, uma das exigências de um dos mestres dele. Ao mesmo tempo, a exemplo do próprio Buda, mostra-se surpreendentemente hábil, como se todo aquele conhecimento já estivesse presente desde sempre dentro dele. (…)

Um outro detalhe muito interessante é que, mesmo que haja um vilão (ou mais de um), como todo desenho de aventura que se preze deve ter, há um esforço em mostrar o lado humano e as motivações que levam, no caso, por exemplo, o príncipe Zucco a caçar tão desesperadamente o Avatar. Há até um ensaio de amizade entre os dois. O que contribui para isso é justamente a questão dos elementos, ou seja, todos os elementos convivem em paz.”

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Avatar: The Last Airbender Book 3 REMASTERED trailer 1080p (Canal YouTube: Tim Rysaev)

ALGUNS ENSINAMENTOS DO TIO IROH

“Nunca deves ceder ao desespero. Se te deixares levar por esse caminho, render-te-ás aos teus instintos mais baixos. Nos momentos mais sombrios, a esperança é algo que dás a ti próprio. Esse é o significado da força interior.” (S2, ep. 5)

“O fogo é o elemento do poder. O povo da Nação do Fogo tem desejo e vontade, e a energia e força para conseguir o que quer. A terra é o elemento da substância. O povo do Reino da Terra é resistente e orgulhoso. São persistentes e leais. O ar é o elemento da liberdade. Os Nómadas do Ar libertaram-se dos apegos mundanos e encontraram a paz e a liberdade, e tinham um ótimo sentido de humor. A água é o elemento da mudança. O povo da Tribo da Água é capaz de se adaptar a muitas coisas. Eles têm um sentido profundo de comunidade e amor que os mantém unidos através de tudo.” (S2, ep. 9)

“É importante retirar a sabedoria de muitos lugares diferentes. Se a retirares de apenas um lugar, ela torna-se rígida e obsoleta. Se aprenderes a compreender as outras nações, os outros elementos e as outras pessoas, tornar-te-ás completo.” (S2, ep. 9)

“É a combinação dos quatro elementos numa só pessoa que torna o Avatar tão poderoso. Mas também pode tornar-te a ti mais poderoso.” (S2, ep. 9)

IROH e suas 5 LIÇÕES para a VIDA | Psicologia Avatar (Canal YouTube Psicologia dos Animes)

“Embora seja sempre melhor acreditar em nós próprios, um pouco de ajuda dos outros pode ser uma grande bênção.” (S2, ep15)

“É hora de olhares para dentro e começares a fazer a ti próprio as grandes perguntas: quem és tu e o que é que tu queres?” (S2, ep. 17)

“Às vezes a vida é como um túnel escuro onde nem sempre consegues ver a luz no fim, mas se continuares a andar, vais chegar a um lugar melhor.” (S2, ep. 20)

“A chave da sabedoria e do chá é o envelhecimento adequado.” (S2, ep. 20)

“Zuko, precisas de olhar para dentro de ti próprio para te salvares do teu outro eu. Só assim o teu verdadeiro eu se revelará.” (S3, ep. 1)

“Às vezes, a melhor maneira de resolver os teus próprios problemas é ajudar outra pessoa.” (S3, ep. 10)

“Se procurares a luz, frequentemente a encontrarás. Mas se procurares a escuridão, é tudo o que verás.” (na sequela A Lenda de Korra, S2, ep. 10)

DOCUMENTÁRIO

Avatar: The Last Airbender Documentary (Full) – Avatar Spirits (Canal YouTube: UltimateKorraTV)

O Avatar foi exibido originalmente entre 2005 e 2008, recebeu vários prémios e indicações, e deu origem a novas obras do mesmo universo, incluindo livros, jogos, e a sequela A Lenda de Korra.


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