Avatar: O Último Mestre do Ar (The Last Airbender), também conhecida em alguns países como Avatar: A Lenda de Aang, é uma brilhante série de animação que inclui vários paralelos com o budismo. Foi criada por Bryan Konietzko e Michael Dante DiMartino para o canal Nickelodeon, e conta as aventuras de Aang, o atual sucessor de uma longa linhagem de Avatares. Ele e os seus amigos têm a missão de salvar o mundo dos ataques da Nação do Fogo, que tem como objetivo o domínio de todo o mundo.
A série passa-se num mundo fictício influenciado pelas artes marciais, cultura e mitologia asiática. O público-alvo são as crianças, mas dada a profundidade da séria, atingiu também um público adulto. A obra contém componentes sociopolíticos, históricos, psicológicos, filosóficos, espirituais, entre muitos outros. A linguagem visual e composição, a influência cinematográfica, a coreografia, a construção de mundos, a narrativa e o desenvolvimento das personagens, a banda sonora de altíssima qualidade produzida por Jeremy Zuckerman, a mensagem que passa e os ensinamentos, entre outros aspetos, fazem com que o Avatar seja uma grande obra-prima.
O mundo em Avatar é composto pelas Tribos da Água do Norte e do Sul, Nação da Terra, Nação do Fogo, e Nómadas do Ar. Há personagens que têm a capacidade de dominar elementos e outras não, sendo o Avatar o único com a capacidade da dominar os 4 elementos. A maioria dos animais nesse mundo são uma mistura de dois ou mais animais reais, por exemplo, o lémure-voador é uma mistura de lémure e morcego com comportamento de gato.
A palavra avatar vem do sânscrito avatāra, que significa “descida”. No hinduísmo ela representa a manifestação corporal ou a descida de um ser divino à Terra. O Aang é um avatar, mas a sua característica assemelha-se mais ao conceito tulku do Budismo Tibetano. Um tulku é geralmente entendido como a manifestação reconhecida de um mestre anterior, associada à continuidade de uma linhagem espiritual e ao benefício dos seres, embora existam pequenas variações de interpretação entre tradições e contextos. Um exemplo de linhagem de tulkus é a dos Dalai Lamas.
Na série o Aang foi reconhecido como um Avatar em parte pelo mesmo processo geralmente utilizado no reconhecimento de tulkus. A forma de como o Aang foi reconhecido foi basicamente a mesma do 14º Dalai Lama. A cultura dos Nómadas do Ar, da qual faz parte o Aang, foi inspirada na cultura tibetana. O mestre do Aang chama-se Gyatso. O mestre de Korra (filho de Aang na sequela) chama-se Tenzin. Tenzin Gyatso é precisamente o nome do 14º Dalai Lama.
O Aang foi ensinado pelos monges a ser uma pessoa pacifica. Ele é vegetariano e apenas uma criança que ainda tem muito que aprender, mas que carrega a responsabilidade de acabar com a Guerra dos 100 anos. Para isso, terá que derrotar o Senhor do Fogo, enfrentando o grande dilema de ter de lutar sem trair os seus valores.
Para além da figura principal, a série destaca-se também pela riqueza das outras personagens.
Katara é oriunda da Tribo da Água do Sul, é profundamente empática e sempre disposta a ajudar. Assume frequentemente o papel de guia emocional dos seus companheiros. O domínio da água reflete a sua personalidade, fluída, adaptável, e poderosa quando necessário.
Sokka é o estratega do grupo. Não possui a capacidade de controlar um elemento, mas compensa essa ausência com inteligência, criatividade e coragem.
Toph é cega desde o nascimento, mas consegue “ver” o mundo pelas vibrações do solo. Tem uma personalidade irreverente, independente e destemida. A Toph é uma das figuras que traz a inclusividade para a série.
Zuko inicia a sua jornada consumido pela raiva. Ele quer recuperar a honra perdida e conquistar aprovação do pai, o Senhor do Fogo. Para isso ele obsessivamente tenta capturar o Avatar. Ao longo da série vamos compreendendo a motivação do personagem. Zuko tem uma das redenções mais belas da ficção e exemplifica que a transformação é possível.
Iroh é o tio do Zuko e um dos personagens mais sábios e serenos. Ele foi um antigo general da Nação do Fogo. É conhecido pelo seu amor pelo chá e paciência. O Iroh tenta direcionar o Zuko para o caminho correto. Para Iroh, a verdadeira força nasce do equilíbrio interior, da compaixão e da capacidade de aprender com todas as experiências, sejam elas de alegria ou de sofrimento. Iroh é um dos melhores mentores da ficção.
Estas são algumas das personagens de maior relevância entre muitas outras.
As artes marciais no mundo Avatar foram baseadas em artes marciais reais: Fogo – Shaolin do Norte, Água – Tai Chi, Terra – Hung Gar, Ar – Ba Gua Zhang. Apenas Toph foge a regra, ela tem o seu próprio estilo de luta, o Louva-a-deus do Sul.
O Avatar foi exibido originalmente entre 2005 e 2008, recebeu vários prémios e indicações, e deu origem a novas obras do mesmo universo, incluindo livros, jogos, e a sequela A Lenda de Korra.
Sugestão de leitura (links externos):
Bodisatva.com.br: “Se você é uma ou um praticante budista, tem um filho pequeno e, depois da conversão, anda com medo do que o pimpolho anda vendo pela TV, jogando na escola, se influenciando por aí, saiba que nem só de inferno vive a mídia. (…)
Os detalhes peculiares e interessantes estão, por exemplo, no paralelo Avatar|Tulku. Ou seja, o Avatar também é uma reencarnação de um Avatar anterior, chamado Roko. Ele aparece para o menino, apontando caminhos, buscando encorajá-lo, mostrando que, na verdade, eles são a mesma pessoa. Também o Avatar é reconhecido através de testes muito parecidos com aqueles que se fazem para localizar os grandes mestres reencarnados. E isso acontece num monastério, onde Aang convive com centenas de outros mongezinhos que brincam e se divertem, numa espécie de reprodução dos cenários que vemos em filmes como A Copa e Samsara.
Também é muito interessante ver como, apesar de ele ser um Avatar reconhecido, ele precisa treinar como todos os mestres budistas. Nesse aprendizado, ele se mostra incrivelmente humano e tipicamente infantil (não infantilóide), o que o aproxima muito do público telespectador: fica irritável quando não consegue aprender logo, não tem muita paciência pra meditar, uma das exigências de um dos mestres dele. Ao mesmo tempo, a exemplo do próprio Buda, mostra-se surpreendentemente hábil, como se todo aquele conhecimento já estivesse presente desde sempre dentro dele. (…)
Um outro detalhe muito interessante é que, mesmo que haja um vilão (ou mais de um), como todo desenho de aventura que se preze deve ter, há um esforço em mostrar o lado humano e as motivações que levam, no caso, por exemplo, o príncipe Zucco a caçar tão desesperadamente o Avatar. Há até um ensaio de amizade entre os dois. O que contribui para isso é justamente a questão dos elementos, ou seja, todos os elementos convivem em paz.”
DOCUMENTÁRIO
IMDB – Wikipédia-Eng – Wikipédia-Pt
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