Qual o futuro de Bodhgaya?

Publicado em Atualizado em

Através deste artigo fique a conhecer o estado atual de Bodhgaya e o que poderá ser o seu futuro. Inclui uma entrevista exclusiva ao arquiteto Sidharth Kumar, o idealizador de um mega projeto que visa transformar Bodhgaya num destino de peregrinação budista de classe mundial. 

Bodhgaya Smart City
Bodhgaya Green City Project / Sidharth Associate

Situada no norte da Índia, Bodhgaya é o local mais importante para os budista. Foi em Bodhgaya que Siddhartha Gautama atingiu a iluminação e se tornou num Buda. Bodhgaya faz parte de um circuito de peregrinação budista que engloba outros importantes locais.

O Templo Mahabodhi assinala o local onde o Buda se sentou em meditação e atingiu a iluminação, é Património Mundial da UNESCO. A cidade é um centro multicultural, possui templos construídos pelas instituições budistas de vários países e recebe visitantes de todos os cantos do mundo.

Mas Infelizmente Bodhgaya tem sido negligenciada durante anos. Apesar da sua história e dos templos que dignificam Bodhgaya, os problemas da cidade são vários: muito lixo, poluição, ausência de boas instalações, espaços degradados e em desarmonia, ordenamento do território deficiente, problemas de tráfego, etc.

Associações sem fins lucrativos e dentro das suas limitações, fazem o que podem para embelezar Bodhgaya, mas só uma intervenção de fundo por parte dos governantes pode resolver os vários problemas e proporcionar um desenvolvimento sustentável da cidade. E de facto nos últimos anos os políticos da Índia têm feito um pequeno esforço para melhorar as condições de Bodhgaya, assim como dos outros locais do circuito de peregrinação budista da Índia.

Em 2006 foi criado um master plan para ser executado progressivamente até 2031, em 2011 um novo master plan foi criado, mais recentemente foi criado um projeto para o desenvolvimento do circuito budista a ser executado entre 2014 e 2018.

As intenções dos últimos anos parecem mostrar que existe um maior desejo de melhorar as condições de Bodhgaya e do circuito de peregrinação budista da Índia. No entanto, infindáveis obstáculos relacionados com burocracia, fundos, interesses divergentes, entre tantos outros, fazem com que os melhoramentos sejam mínimos e executados de forma lenta.

Atualmente existem planos ambiciosas para tornar Bodhgaya num centro budista de referência mundial. Mas será que vão sair do papel?

Narendra Modi, o Primeiro-Ministro da Índia, anunciou este mês a construção de um Centro de Convenções Internacional com um Parque Temático Budista.

Maitreya Project é um projeto que já tem vários anos, com avanços e recuos, supostamente seria para avançar brevemente juntamente com a Estátua Maitreya em Kushinagar, porém, as informações ainda são escassas.

Mas o projeto que se concretizado irá mudar a face de Bodhgaya, é o Bodhgaya Green City.

Bodhgaya Green City Project

No final de 2016 o governo da Índia lançou a competição India Next, visando encontrar soluções para a gestão urbana. O Bodhgaya Green City Project, desenvolvido pelo arquiteto Sidharth Kumar e a sua equipa da Sidharth Associates, ganhou a competição. Em 2017 o projeto também ganhou o prémio WA Award Cycle 24.

Este projeto visa tornar Bodhgaya numa Smart City, uma cidade inteligente e ecológica, e consequentemente num destino de peregrinação budista de classe mundial.

Segundo a Sidharth Associates, o foco da proposta é re-naturalizar a cidade, com maior ênfase na zona envolvente ao Templo Mahabodhi e frente ribeirinha. Pretende colmatar as necessidades do turismo de massa, como a prática espiritual, meditação e também diversão, além de satisfazer as necessidades dos cidadãos locais com educação, emprego, etc, e resolver os vários problemas referidos no inicio deste artigo.

A cidade foi dividida em três zonas concêntricas. Zona 1: 0-400 m; Zona 2: 400m a 800m e Zona 3: 800m a 1200m.

O Templo Mahabodhi e a zona envolvente foi considerada como o centro da cidade. A zona central será totalmente preservada pela natureza para facilitar o propósito espiritual, juntamente com os serviços de apoio. O núcleo da cidade será um espaço livre de tráfego, permitindo apenas pedestres, bicicletas ou riquexós elétricos para deficientes e idosos, ajudando assim a reduzir a poluição da área de meditação juntamente com a manutenção da ecologia.

O segundo anel tem instalações já existentes relacionadas com comercio e alojamento, destinadas aos turistas e cidadãos. A proposta tende a promover o desenvolvimento institucional, restringindo as novas construções comerciais e residenciais. O segundo anel também tem regras restritas a carros, que serão substituídos pelo transporte público.

No Terceiro anel existirá liberdade de uso da terra com restrição de altura para os edifícios. Servirá para uso misto, incluindo cultura e arte, proporcionando amplas instalações e serviços para os turistas e população local. Também irá dispor de sistemas de transporte público e mobilidade inteligente para os cidadãos e turistas.

Um sistema inteligente de coleta de lixo foi proposto para atender aos desafios do turismo. Esse sistema usará a mesma tecnologia do sistema de coleta implementado em Barcelona no inicio dos anos 90, quando a cidade espanhola passou por uma grande reforma para sediar os Jogos OlÍmpicos de 1992.

O pavimento terá ladrilhos geradoras de energia cinética conectadas ao sistema central de armazenamento de energia, o que contribuirá com uma parte da energia necessária para a cidade.

O conceito irá maximizar a vegetação verde para a cidade, ajudando assim as pessoas a circularem facilmente com temperaturas adversas. A abordagem de cidade verde tenderá a alcançar a sustentabilidade através do design urbano e com a ajuda da tecnologia e princípios bioclimáticos.

Segundo Sidharth Kumar, estão agora a planear arrecadar fundos para que a cidade proposta seja materializada. Segue uma entrevista com o arquiteto idealizador desta obra.

Entrevista exclusiva a Sidharth Kumar

A Índia tem um plano para criar 100 Smart Cities, mas parece-me que Bodhgaya não faz parte desse plano, correto?

Sim, você está um pouco certo sobre o Plano da Índia para 100 cidades inteligentes. De facto estamos trabalhando na proposta de 100 Smart Pan City (Uma pequena área da cidade). Exemplo: Patna foi dividida em 72 partes e eles estão trabalhando numa parte que é a área de Gandhi Maidan.

A nossa proposta para a cidade de Bodhgaya é semelhante a isso. Foram anunciadas poucas cidades para serem desenvolvidas como Cidade Patrimonial.

O custo para completar o projeto será muito alto para o Estado? Como vão conseguir os fundos?

É fácil levantar fundos de países budistas no modo PPP (parceria público-privada). Agora, isso depende do esforço e do interesse do Estado.

Bodhgaya é um lugar que pode gerar fundos para outras cidades, já que muitos investidores estão ligados a esse lugar sagrado. Além disso, uma Bodhgaya Verde e Inteligente, terá potencial para gerar bons fundos para um estado turístico.

Veja como Barcelona gera para a Espanha. Financiamento vindo de vários investidores parece obrigatório.

O financiamento da Secção de Mobilidade (Eléctrico, Metro, Bicicleta, E-Riquexó) pode ser gerado por um acionista; para Parques e Lagos, o departamento do Desenvolvimento do Turismo pode assumir a responsabilidade; estradas, caminhos podem ser dados ao RCD; o governo central estará sempre pronto para contribuir com parte do fundo necessário para o desenvolvimento.

Não é muito difícil para o governo estatal obter um empréstimo da HUDCO/NABARD. Até mesmo o UNDP e o Banco Mundial podem se chegar e frente e contribuir se começarmos a trabalhar no terreno.

Estamos agora a planear arrecadar fundos para a cidade proposta, para realizar o conceito no terreno.

As expropriações são um problema? É o maior obstáculo?

O antigo master plan de Bodhgaya fracassou devido a conflitos derivado do planeamento de uso de terrenos.

Atualmente o crescimento de Bodhgaya pode ser controlado e organizado, se não o for, nos próximos 40 anos será uma selva de concreto devido a assentamentos não controlados.

Para mim, o maior obstáculo é a invasão da cidade. Os bairros de lata (favelas) invadiram a maior parte do espaço ribeirinho. Mesmo na área mais central da cidade, foram invadidas terras públicas. Poucas terras foram invadidas devido a conflitos religiosos.

Assim que estejamos no terreno e resolvamos o problema da invasão, a primeira fase de desenvolvimento, vamos atravessar. É tudo sobre a nossa vontade e ação.

Qual a solução para as pessoas que terão de abandonar as suas casas e terrenos? Que cuidados a ter para que elas não saiam prejudicadas?

De acordo com a minha proposta, estamos realocando dois tipos de pessoas. (1) Aquelas que invadiram as terras públicas, tanto na frente ribeirinha como na cidade; e (2) moradores de bairros de lata.

A provisão para as realocar foi feita para a 4ª zona.

Na sua opinião, e conhecendo os obstáculos a enfrentar, você acha que o projeto será mesmo materializado? Se sim, em quanto tempo?

A meu ver, serão necessários uns 40 anos para concretizar a ideia, já que as pessoas em todo o estado começaram a falar sobre o conceito e a visão. Minha primeira intenção foi começar uma discussão para expandir consciências.

O rio Sabarmati em Ahmedabad foi projetado por um arquiteto 50 anos antes e completado pelo seu filho há alguns anos atrás. O master plan de Barcelona foi idealizado em 1863 por Creda, hoje é uma das cidades inteligentes melhor planeadas do mundo.

Estou a planear para breve uma reunião sobre o Green City Project com o Estado C.M.

Já existiram outras reuniões? Você sente que existe interesse e esforço do Estado para levar este projeto para a frente?

Depois do envio de uma proposta para o governo central. Eu vi poucas iniciativas. Eles impediram a entrada de veículos poluidores na área da cidade. Uns poucos líderes falaram sobre começar a trabalhar na frente ribeirinha.

Ainda assim, não há nenhum anúncio no papel para iniciar o trabalho do crescimento inclusivo de toda a cidade, de acordo com o plano da cidade inteligente. Acho que precisamos impulsionar através da campanha e da conscientização para que o governo estatal tenha a atenção de levá-lo ao próximo nível.

Vamos falar um pouco sobre alguns detalhes do projeto. Que edifícios verdes são esses junto às rotundas?

Essa área foi planeada para desenvolvimento de uso misto, no qual o espaço foi alocado para (a) mercado de arte e artesanato, (b) um centro cultural e instalações de apoio.

Perto da praça pública, parece-me que a estrada passa por baixo do solo, certo? Vai ser possível circular por baixo de algumas áreas?

Você está certo, é uma passagem subterrânea. Atualmente, há diferenças de nível na topografia da terra, portanto, é possível criar algumas passagens inferiores.

O que são essas pequenas linhas brancas que estão perto da praça pública? Estradas? Passadiços? Parece-me que também estão num nível superior.

Essa trilha é a estrada existente com passagens elevadas nas áreas de invasão. Eu não incluí mais isso no meu conceito devido a problemas de conflito.

~

Esta é a primeira entrevista fora da Índia sobre este projeto. E com exceção de alguns sites de arquitetura, provavelmente o Olhar Budista também é o primeiro site a divulgar esta proposta.

Agradeço ao arquiteto Sidharth Kumar por essa oportunidade, pela sua simpatia e disponibilidade em partilhar as várias informações sobre este projeto.

Além de muito bonito, este conceito traria muitos benefícios para a cidade, para os seus moradores e para a própria Índia, é o que Bodhgaya realmente precisa para se tornar num centro budista de classe mundial. Esperemos que esta extraordinária proposta seja materializada para que Bodhgaya ganhe a magnificência que deveria ter.

 

Referências: Sidharth AssociatesA As Architecture, World ArchitectureArchitizer

Créditos das fotos e imagens:
Bodhgaya (2011): Ricardo Sousa
/Olhar Budista;
Bodhgaya Green City Project: Sidharth Associates.

 

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