A libertação do ciclo insatisfatório de renascimentos

Publicado em Atualizado em

morte-alemPergunta: Por que o budismo parece enxergar a vida (ou os renascimentos) como algo a ser extinto definitivamente? Sabe-se a origem desse pensamento, que a princípio soa pessimista e depreciativo em relação à vida, seja aqui ou em outros mundos? O budismo parece não valorizar a existência e a própria vida quando sugere que seu objetivo último é o Nirvana e com isso a cessação de tudo e o não retorno (fim dos renascimentos). Curiosamente essa perspectiva não me parece muito compatível com a visão do zen budismo que tenho observado até então, onde eu percebo uma valorização da existência, uma postura de afirmação de sermos a própria vida do universo e da maravilha que pode ser estarmos aqui. Sou bastante iniciante nesse campo e cheio de dúvidas, no entanto. Obrigado! (Luis Branco)

Resposta de Henrique Pires:

Esse tipo de dúvida emerge quando primeira e terceira nobres verdades ainda não foram entendidas em profundidade.

1) Sobre a Primeira Nobre Verdade
Buddha descrevia a nobre verdade do sofrimento, da imperfeição, da insatisfatoriedade que se aplica à existência cíclica. Em vários lugares, comparou o ciclo de renascimentos com uma prisão, com uma casa em chamas, com um viajante vagando sem rumo no deserto, com um grande oceano onde os seres se debatem (ora respirando sobre a superfície, ora se afogando sob a mesma). Essa visão profunda nos permite entender que, por mais que estejamos respirando aliviados no momento presente, usufruindo coisas boas na vida, isso se equipara à condição de um náufrago que se encontra à deriva no mar e, no atual momento, sente-se aliviado por estar com a cabeça pra fora d’água – respirando. Não tardará para que as condições mudem e muito sofrimento volte a se manifestar, no entanto. No caso do náufrago da metáfora, é de se esperar que encontre ondas ou tormentas que o farão submerger. No nosso caso, como seres vagando pelo oceano do samsara, é de se esperar que as ondas da doença, velhice e morte nos aflijam – repetidas vezes. Há ainda a separação dos entes queridos, a dissolução do que amamos, a reunião com o que não queremos, e a imperfeição inerente do mundo que nos impede de achar no mesmo qualquer estabilidade satisfatória. Ainda não atingimos uma condição efetivamente segura, efetivamente pacífica, efetivamente livre do sofrimento. Esta é uma percepção que se pode ter ao compreender a primeira nobre verdade: perpetuar a existência cíclica, acreditando que ela é doce e maravilhosa, é uma ilusão. Buddha o compara com crianças que brincam numa casa em chamas, sem saber que uma hora irão se deparar com as chamas.

É portanto, uma condição que carece de liberdade.

2) sobre a terceira nobre verdade
Dito isso, Buddha também ensinava a solução para este quadro. Ele explicava que atingir o estado do nirvana é a felicidade suprema, real, satisfatória, permanente. A paz e a segurança definitivas. A esse estado ele atribuía as palavras “extinção de todo sofrimento” e “Liberação Completa”. Alcançar tal estado, liberando-se do ciclo insatisfatório de renascimentos, é algo que sempre mal-entenderam: já na época do Buddha havia os que o acusavam de promover apologia à destruição dos seres, à destruição da vida. E quanto a isso ele respondia que se equivocavam, pois a mensagem do Buddha é sobre a destruição do sofrimento e dos confinamentos.

O estado do nirvana em si, que tem de ver com a dissolução da ilusão da entidade individual, e tem de ver com o fim da transmigração no samsara, é algo que Buddha descreveu como jubiloso, agradável, sublime e pacífico. Mas é algo que está além de todos os conceitos ou definições. Por isso, não se pode falar que no nirvana há existência ou inexistência; e por isso mesmo, dizer que nirvana é destruir a vida e os seres seria uma lógica extremamente estreita (e equivocada).

Por uma analogia, pode-se pensar na pessoa que se vê adormecida e presa a diversos sonhos. Ela sonha com uma identidade, com um lugar, com uma vida… Mas não consegue acordar. Então alguém ao seu lado lhe dá um sacode e ela efetivamente desperta. Pode-se dizer que o ato de despertar pôs um fim a todos aqueles produtos oníricos: a identidade do sonho, o lugar do sonho, as preocupações e terrores do sonho, tudo cessou quando ela desperta. Mas poder-se-ia dizer que aquele que ajudou a pessoa a acordar seria um destruidor de tais coisas? Poder-se-ia dizer que tal pessoa promulga a hostilidade ou aversão para com aqueles conteúdos do sonho? Na verdade não… De modo simples, tudo o que é feito é valorizar a realidade em detrimento da ilusão. Quando se desperta, a confusão habitual de dar voltas ao redor de coisas sem substancialidade desaparece por si mesma, e um estado de maior segurança e lucidez se desvela. Isso seria mais acurado de se comparar com nirvana, com a cessação do ciclo de transmigrações. Novamente, difere de negar a vida. Se algo é negado, trata-se então de negar as ilusões, de olhar mais profundamente, e despertar.

3) exemplo da caverna

Para facilitar na assimilação desse cenário, pode-se pensar na metáfora da caverna de Platão. Estamos em uma condição análoga a de prisioneiros atados por grilhões, vivendo dentro de uma caverna escura. Por vezes sentimos pequenas alegrias, mas estamos expostos a muitos sofrimentos. Mais do que isso, carecemos de liberdade real.

Eis que alguém rompe os grilhões e sai daquele confinamento. Vê a realidade mais além daquela condição mísera e aflitiva. Ao regressar, tenta explicar aos outros que eles estão repousando numa condição miserável; tenta explicar que existe uma condição mais satisfatória que pode ser alcançada saindo da caverna, rompendo os grilhões. Mas aquelas pessoas tem medo, ou se irritam. Pensam nos grilhões como parte de si, como algo que confere segurança, como parte da sua identidade. Pensam na caverna como seu mundo, como o todo. E assim, acusam aquele que se libertou de estar fazendo apologia à fuga, à destruição da vida e dos elementos da vida; acusam-no de estar sendo ingrato e de não apreciar a “maravilha” da caverna…

Tal é nossa condição, quando Buddha tenta explicar que ainda estamos atados a uma condição de confinamento, a um ciclo de transmigrações que gera sofrimento. Tal é nossa situação quando ele tenta explicar que é possível atingir um patamar de liberdade inexplicável, o nirvana, com paz e satisfação muito além do que conhecemos. E ele diz que precisamos romper nossos grilhões e abandonar o confinamento. Agora, os grilhões são os prazeres dos sentidos, o desejo e o apego ao conforto; são a noção de individualidade, a raiva e a cobiça e a ignorância. A maioria de nós vê os grilhões como algo maravilhoso, como algo que é bom, e não consegue gerar a motivação para ir além deles.

Nessa mesma lógica, vemos o ciclo de renascimentos – a caverna escura que nos limita – como algo maravilhoso e encantador; acreditamos que não há nada melhor, nada além disso, e então não geramos a motivação para ir além.

Alguém poderia acusar aquele que se liberou de estar dizendo loucuras, de estar exigindo muito. E tal é geralmente o que dizemos.

Mas este é nosso quadro. A ideia do Buddha é de que é possível ir além do nosso atual estado de confinamento e alcançar o estado de Paz Suprema.

Os que não estiverem prontos para isso, vão começar apenas arrumando a caverna, limpando e polindo os grilhões, deixando seu confinamento mais “agradável”. Os que puderem, o quanto antes saem dessa prisão.

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A História da Tartaruga e do Peixe
Contada por Bhikkhu Bodhi

“Para ilustrar esse erro de conceber o Nirvana como um mero nada, os Budistas contam a história da tartaruga e do peixe. Era uma vez uma tartaruga que vivia em um lago com um grupo de peixes. Um dia a tartaruga saiu para uma volta em terra. Ela ficou fora do lago por algumas semanas. Quando retornou encontrou alguns peixes. Os peixes perguntaram a ela, “Senhora Tartaruga, olá! Como vai você? Não temos visto você aqui nas últimas semanas. Onde você estava?” A tartaruga disse, ‘Eu estava em terra, passei algum tempo na terra seca”. Os peixes ficaram confusos e disseram, “Lá na terra seca? O que você está dizendo? O que é esta terra seca? É molhada?” A tartaruga disse, “Não, não é”. “É agradável e refrescante?”. “Não, não é”, “Tem ondas ou marés?”, “Não, não tem ondas nem marés”. “Você pode nadar nela?”. “Não, você não pode”. Então os peixes disseram, “não é molhada, não é fria, não tem ondas, você não pode nadar nela. Então essa sua terra seca deve ser completamente não-existente, apenas uma coisa imaginária, nada real afinal”. A tartaruga disse, “Bem, pode ser” e deixou os peixes para outra volta na terra seca.”


A questão acima colocada e a respectiva resposta surgiram num grupo do facebook, a publicação neste site foi autorizada pelos respectivos intervenientes.

Sobre Henrique Pires | Lista de Mestres e Professores

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