Vajrayana (Tibetano)

Os 4 níveis de Fé (ou confiança)

Quando se fala em fé no budismo, é mais no sentido de confiança, não é uma fé cega, não é seguir algo sem que se possa questionar. É como a confiança que uma pessoa tem quando vai a um médico e segue o tratamento indicado. De seguida são apresentados 4 níveis de fé segundo o budismo tibetano.

Nível 1: Fé clara ou luminosa

É a fé que surge quando por exemplo pela primeira vez lemos um livro, assistimos a algum ensinamento, entramos em algum templo, ou qualquer coisa desse tipo, e temos a sensação que estamos perante algo importante, valioso, a sensação de nos sentirmos mais em paz, de estarmos perante uma boa energia.

Nesse momento há como uma clareza ou luminosidade que nos toca. Como se costuma dizer, “ficamos com o bichinho atrás da orelha”, notamos que existe algo, seja na pessoa, no sítio, nas palavras ou noutra coisa qualquer, que não é comum, que está um pouco além do que é habitual.

Nível 2: Fé inspirada

Depois da pessoa ficar “com o bichinho atrás da orelha”, surge a motivação ou inspiração de ir à procura dessa luz, de saber de onde é que isso vem, de querer perceber porque tal pessoa tem uma certa energia ou porque tal filme ou livro foi tocante.

Sentimo-nos entusiasmados e começa uma busca, uma fase de descoberta. É uma fase em que de certa forma estamos “apaixonados”.

Da mesma forma que quando estamos apaixonados por uma pessoa queremos estar sempre com ela, neste nível de fé começamos a querer ter cada vez mais contacto com o Budadharma, a querer ler livros, assistir a palestras, ir a templos, eventos, etc. Estamos fascinados.

Muitas pessoas, mesmo após muitos anos de se tornarem budistas, não atravessam a fase do entusiasmo, funcionam mais como fossem fãs de algum artista famoso. Seguem o mestre ou a mestra para todo o lado, ouvem todo o tipo de ensinamentos, mas não os aplicam de forma a atingir o seguinte nível de fé.

Nível 3: Fé confiante

À medica que o que aprendemos se começa a misturar connosco, a fazer parte de nós, à medida que começamos a aplicar e a verificar o seu efeito, os resultados e os benefícios, surge a confiança baseada na experiência e na vivência. Começamos a ganhar uma verdadeira confiança. Passamos da paixão que ainda é algo muito emocional, para algo muito mais integrado e fundamentado.

Nível 4: Fé irreversível

Depois de algum tempo no nível de fé confiante, começa a surgir uma fé irreversível.

A convicção é tão grande e baseada na realidade, nos resultados reais que constamos, que a partir desse momento, faça alguém o que fizer ou diga alguém o que disser, não vai mudar nada na convicção, porque é algo baseado na experiência.

Não se está a falar da convicção em relação a algum mestre, a alguém ou alguma escola, mas a convicção nos ensinamentos do Dharma.

É uma fé irreversível não por alguma “lavagem cerebral”, mas porque os ensinamentos foram experienciados em profundidade e consistência. E perante os resultados notados em nós e nos outros, só pode existe a forte convicção que funciona!

É uma fé que não resulta de um sistema de valores nem de convicções ideológicas, resulta da experiência direta, não de algo abstrato. E talvez por isso, normalmente não existe um incomodo quando as nossas convicções são postas em causa. Da mesma forma, se eu meter a mão no fogo sei que me vou queimar, a argumentação em contrário é indiferente, não há nada a defender e a verdade está aí para quem quiser verificar.

Referências: Palestras de Tsering Paldron: 1, 2; Ensinamentos de Khandro Rinpoche.

Veja também:

5 comentários

    1. Obrigado pelo comentário. Os méritos são da Tsering Paldron e Khandro Rinpoche, que deram os ensinamentos que serviram de referência para este post.

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  1. Saudações
    Primeiramente gosta muito do site Olhar Budista. Tem sido importante para mim. Participo de um grupo de Zen Budismo ( virtual ) desde o início da pandemia. Temos encontros todos os dias das 18h às 19h. O grupo tem a orientação de um monge Zen Budista, como formação no Busshinji – SP. Pois bem, falando em Fé, ultimamente tenho me colocado a seguinte questão: e se a figura do Buda Shakyamuni não tiver existido? O que impacta isso no Budismo e obviamente em mim, enquanto um “leigo aprendiz”? Sabemos que para os cristãos é fundamental a que Jesus Cristo tenha existido e pisado na Terra e na terra. O cristianismo teria tido muita dificuldade de ir para frente sem esta certeza. Historicamente me parece que não temos tantas ‘ provas’ da existência do Buda Shakyamuni. Algumas escavações em Lumbini e algumas outras evidências, porém não tão contundentes. E o que diz o Budismo ou os ‘budismos’ desta Fé? Claro que é uma opinião de leigo e iniciante, mas para mim não muda muito se Buda existiu ou não, porque o Dharma que chegou até nós é tão contundente e vivo, pleno de práticas para o desenvolvimento da sabedoria, compaixão, que nos servem até hoje, que me alegro muito em estar neste caminho. Sem falar no poder da sangha e do exemplo de tantos mestres de tantas linhagens do budismo que chegaram a iluminação, ao satori, que estes ‘fárois’ já me são suficientes, para me guiar e me dizer – você também pode chegar lá. Grato pela atenção. Gasshô !

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    1. Olá. Obrigado pelo seu comentário!

      Como você disse, se Buda Shakyamuni não tivesse existido não creio que isso fosse um problema para os budistas. O budismo é um método, um conjunto de ferramentas que utilizadas adequadamente levam ao despertar. Esse método foi utilizado e testado ao longo de mais de 2500 anos. Praticantes experientes têm comprovado a validade do método. Se quem criou o método foi Shakyamuni, outra pessoa ou um conjunto de pessoas, na realidade não muda nada a validade dos ensinamentos, e por conseguinte a eventual não-existência do Buda histórico não deveria ser um problema. Além disso, o Dharma existe independentemente do Buda, ele apenas o revelou.

      Mas embora não seja muito útil as comparações com outra religião, me parece que as evidencias históricas sobre a existência do Buda não sejam muito menores que a de Jesus. A vida do Buda está documentada desde o nascimento até à morte. São vários volumes de escrituras com os ensinamentos que o Buda foi dando ao longo dos anos, e em textos antigos não-budistas também existem referências ao Buda. Existem vários locais históricos que se atribui à vida do Buda com monumentos mandados construir pelo Imperador Ashoka em homenagem ao Buda, é isso que atestam as evidencias arqueológicas. Quando ao cristianismo, não tenho conhecimento de todas as evidências da existência de Jesus, mas acredito que também possam ser várias. Mas por exemplo sobre a vida de Jesus, os evangelhos só falam de Jesus quando ele nasceu e depois já com cerca de 30 anos quando ele começa a ensinar, não se sabe nada (ou sabe-se muito pouco) da sua infância e Juventude, são poucas décadas documentadas sobre a vida de Jesus. Os evangelhos com a mensagem de Jesus não são assim tantos, e a mensagem também não é muito extensa, em comparação com os vários volumes de ensinamentos que o Buda foi dando ao longo de várias décadas.

      Mais uma vez obrigado pelo comentário. Gasshô!

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